Por um fio

Um de meus livros preferidos, Por um fio, do Dauzio Varella, vai além da narrativa peculiar e perspicaz do autor de Estação Carandiru.

São experiências de sua vida, compartilhadas com o leitor, suas angústias e suas reflexões, como médico e ser humano. O autor relata, de maneira sensível e fidedigna, experiências sobre a morte e a tênue linha que a separa da vida. Desde a mais tenra idade, com a morte prematura da mãe, até suas primeiras impressões, ainda no internato, da prática da clínica, dos plantões das segundas no Carandiru, de suas impressões como sanitarista, suas experiências como oncologista, até a morte do irmão, narrada de forma tocante e detalhada. Sem dúvida, mostra as várias faces da morte e de sua possibilidade, iminente e inevitável.

A obra é dividida em pequenos contos, nos quais o autor compartilha suas experiências reais, utilizando de narração em primeira pessoa. São relatadas experiências clínicas do médico com seus pacientes, portadores de câncer ou AIDS que, obviamente, tiveram seus nomes alterados no livro para preservar sua integridade; mas este fato de nada interfere no aspecto de veracidade da obra, uma vez que o autor demonstra grande capacidade de adicionar uma carga emocional à mesma.

Drauzio não restringe sua narrativa à relatos clínicos de pacientes a quem ele acompanhou. O livre permite que o leitor conheça mais a respeito do oncologista, apresentando relatos sobre sua formação e carreira. Um fato bem interessante é que o autor fala também de suas experiências internacionais e mostra a maneira como a tão temida AIDS surgiu e se espalhou gradativamente. O ponto forte do livro é a emoção, visivelmente presente em cada relato. A maneira sensível com a qual o autor narra permite ao leitor compreender  sua a rotina como  sanitarista e oncologista, os laços criados com os pacientes e como o profissional da saúde deve ter um certo preparo para lidar com a morte.

Utilizando de linguagem simples, fluida e sensível, Drauzio consegue desconstruir em seu livro a frieza e o tédio de outras obras com temática semelhante. A obra proporciona uma bela reflexão acerca da efemeridade da vida e a maneira com a qual lidamos nos nossos problemas. Um livro excepcional, que pode e deve ser lido facilmente, sobretudo por aqueles que pretendem seguir carreira na área da saúde.

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Ground control to Major Tom ♪♫

Hoje tive a grata oportunidade de rever um dos meus filmes preferidos: A vida secreta de Walter Mitty. Benn Stiller, que protagoniza e dirige a película, conhecido por seus papéis cômicos, me surpreende nesta bela interpretação. Infelizmente, a crítica não foi benevolente com o filme, e como eu sempre nado contra a corrente, amo a história, e me identifico com ela.

Walter Mitty (Ben Stiller) é um gestor do setor de negativos na revista Life, que frequentemente tem devaneios de aventuras fantásticas, e tem uma queda por sua colega Cheryl (Kristen Wiig). O fotojornalista Sean O’Connell (Sean Penn), que trabalha em estreita colaboração com Mitty, lhe enviou um pacote contendo seus últimos negativos e uma carteira como um presente, pela apreciação de seu excelente trabalho. O pacote contém uma fotografia especial, o negativo 25, que ele diz, por escrito, ter capturado a “Quintessência” da Life, e que esta deve ser usada para a capa da edição final da revista, que se converterá versão online. Infelizmente, esse negativo específico está faltando no pacote, e Mitty é forçado a dar satisfações para o gerente corporativo de transição, o detestável Ted Hendricks (Adam Scott), sobre o status do processamento da imagem. Usando os outros negativos como pistas, Mitty descobre que O’Connell está na Groenlândia e voa até lá para tentar encontrá-lo.

Chegando na Groenlândia, Mitty vai a um bar perguntando sobre O’Connell. O barman explica que O’Connell já se foi em um navio , e para encontrá-lo, Mitty precisa ir no helicóptero postal, e o piloto está bêbado cantando uma versão karaokê de “Don´t You Want Me” no bar. Mitty se recusa a voar com um piloto bêbado, mas imagina Cheryl cantando para ele “Space Oddity”, ganha uma nova confiança, e pula a bordo do helicóptero. Chegando ao navio, Mitty percebe que o helicóptero não pode pousar no navio. Mitty entende que deve que saltar para o navio, em seguida, mergulhando em águas geladas, infestadas de tubarões, antes que ele possa ser trazido a bordo. Ao fazê-lo, Mitty percebe toda essa aventura realmente está acontecendo, ao contrário de seus devaneios. Os marinheiros lembram de O’Connell, e ainda oferecem o bolo a Mitty, o mesmo que sua mãe costuma fazer, e descobre mais uma pista no papel de embrulho. Sua jornada continua na Islândia, onde O’Connell foi para fotografar o vulcão Eyjaflallajökull. Uma erupção impede Mitty de encontrar O’Connell, e ele é forçado a interromper a busca depois de receber uma mensagem de texto dizendo-lhe para voltar para Nova York imediatamente.

Por seu fracasso, Mitty é demitido, e se desanima ao descobrir que Cheryl, aparentemente, se reconciliou com seu ex-marido. Mitty volta para casa, completamente desanimado, e joga fora a carteira quando ele visita sua mãe (Shirley MacLaine) e para sua surpresa, ela menciona ter encontrado O’Connell. Ela havia dito antes, mas ao mesmo tempo sonhando ele não conseguiu ouvi-la. Em seguida, ele encontra uma nova pista para continuar a caçar O’Connell. Mitty  rastreia O’Connell no Himalaia, tentando fotografar um raro leopardo-das-neves, e pergunta sobre o negativo faltando. O’Connell explica que a mensagem sobre a tomada de um olhar mais atento era literal: o negativo estava na carteira. Mitty se junta a ele em um jogo de futebol com alguns moradores. Ele voa para Los Angeles, mas é preso pela segurança do aeroporto, e chama a única pessoa que ele conhece em Los Angeles; Todd Maher (Patton Oswald), um representante da e-Harmony, que manteve em contato através de suas aventuras.

Mitty retorna para casa e ajuda a sua mãe a vender seu piano,  e menciona que não tem mais uma carteira. Sua mãe diz que ela sempre mantém suas recordações, e devolve a carteira que ele havia jogado fora. Sem olhar para o negativo, Mitty o entrega na sede da revista Life, dizendo que esta era a fotografia que Sean O’Connell queria para a edição final, e repreende Hendricks por desrespeitar a equipe que fez a revista tão honrada.

A Quintessência, a foto da última capa da Life se revela, nas bancas, surpreendendo muito o protagonista.

Mitty, em sua infância e adolescência, teria tudo para ser aventureiro e destemido. Era muito incentivado pelo pai, que lhe cortou o cabelo moicano, e lhe deu o que seria o seu diário de viagem. Com o falecimento do pai, ele teve que cortar o cabelo, e começar a trabalhar numa pizzaria. Não teve as aventuras e grandes viagens de mochileiro que desejava, tendo trabalhado por dezesseis anos na Life, sem muitas surpresas em sua vida.

Foi através deste filme que descobri a banda islandesa Of Monster and Men, pela qual fiquei apaixonada, com a canção Dirty Paws. Outra música marcante, citada e interpretada pela personagem Cheryl, foi Space Oddity, de David Bowie. Ao final, nos créditos, somos presenteados com várias imagens do filme, com a cena final da aurora boreal, ao som da ótima Stay Alive, de José González.

Embora não tenha se tornado um blockbuster, sendo desprezado pela crítica, creio ser um excelente filme, que vale muito a pena ser visto.

Uma poesia, para descontrair! :-)

O noivo escreveu um poema para noiva um pouco antes do casamento:

Que feliz sou, meu amor!
Domingo estaremos casados,
O café da manhã na cama,
Um bom sumo e pães torrados

Com ovos bem mexidinhos
Antes de ir pro trabalho
Tudo pronto bem cedinho
Pra ainda ires ao mercado

Depois regressas a casa
Rapidinho arrumas tudo
E corres pro teu trabalho
Para começares o teu turno

Tu sabes bem que, de noite
Gosto de jantar bem cedo
De te ver toda bonita
Com sorriso lerdo e querido

Pela noite mini-séries
Cineminhas dos baratos
E nada, nada de shoppings
Nem de restaurantes caros

E vais cozinhar pra mim
Comidinhas bem caseiras
Pois não sou dessas pessoas
Que só comem baboseiras…

Já pensaste minha querida
Que dias gloriosos?
Não te esqueças, meu amor
Que em breve seremos esposos!

Como resposta, a noiva escreveu um poema para o noivo:

Que sincero meu amor!
Que linguagem bem usada!
Esperas tanto de mim
Que me sinto intimidada

Não sei de ovos mexidos
Como tua mãe adorada,
Meu pão torrado se queima
De cozinha não sei nada!

Gosto muito de dormir
Até tarde, relaxada
Ir ao protesto com as amigas
e combater a macharada

Pensa bem… ainda há tempo
A igreja não está paga
Eu devolvo o meu vestido
E tu o fraque de gala

E domingo bem cedinho
Em vez de andar aos “PAIS”,
Ponho aviso no jornal
Com letras bem garrafais:

*HOMEM JOVEM E BONITO
PROCURA ESCRAVA BEM LERDA
PORQUE A EX-FUTURA ESPOSA
DECIDIU MANDÁ-LO À MERDA!*****

(Fonte: Blog da Mimis)

Run, Forrest, run!

Lembro-me do dia em que, lá pelos idos de 1997, peguei na locadora a fita VHS do filme Forrest Gump (acho o subtítulo “o contador de histórias” ridículo). Não tínhamos vídeo-cassete, e fomos passar o fim de semana no meu tio, que tinha o aparelho.

A cópia era legendada. Tudo me fez ficar apaixonada pela película: a interpretação impecável de Tom Hanks, Sally Field e Gary Sinise, a fotografia, a trilha sonora perfeita…

A cena mais linda, para mim, é quando o pequeno Forrest, fugindo de seus perseguidores, com seus aparelhos ortopédicos, os destrói, correndo para nunca mais parar.

Aquele menino do Alabama passa pelos acontecimentos mais importantes de sua vida, em coincidência com os grandes acontecimentos mundiais daquele período.

A sua relação amorosa com a mãe, o amor precoce por Jenny, a amizade por Bubba, a relação de conflito e mútuo respeito com o Tenente Dan. Apesar de ser ficção, vi muito sobre mim em Forrest: minha dificuldade em perceber ironias; minha insistência em “correr e correr”, nunca me permitindo estar estagnada; meu costume de tentar ver o melhor de cada situação, e meu costume de, quase sempre, evitar conflitos mas, se inevitável for, lutar com todas as minhas forças, até as últimas consequências.

Creio que, neste momento, comecei a me apaixonar pelo cinema. Não posso dizer ser uma cinéfila. Tenho um gosto bem diversificado, mas tenho apreço por filmes históricos, baseados em fatos reais, musicais e aqueles filmes bem melosos. Amo Stanley Kubrick e Clint Eastwood, Tom Hanks, Meryl Streep e Julianne Moore. Tenho um certo receio de filmes de terror e suspense, e evito, sempre que posso. Até hoje não me recuperei pelo filme Enterrado Vivo, com o Ryan Reynolds. Como tenho filhos, não perco animações, e creio que, mesmo eles crescendo, não deixarei de ver filmes deste gênero.

O cinema, seja na sala de reproduções, seja na TV da minha sala ou quarto, sozinha, na companhia de meu marido, filhos ou amigos, com pipoca, batata frita ou nuggets, sempre será precedido por aquela sensação de apreensão, frio na barriga, e muitas emoções. E creio que este despertar de emoções e sensações me fazem ter tanto prazer pela sétima arte.

Buenos Aires – Primeras impresiones

Estive em Buenos Aires, com meu marido, neste último fim de semana. Esta viagem foi aguardada ansiosamente por anos. Primeiro, porque fiz curso de língua espanhola por três anos, com certificação; por amar viagens, para perto ou longe, e amar a cultura latinoamericana.

Chegamos na sexta à noite, no Aeroparque, e ficamos hospedados no NH Crillón, no Retiro. Em seguida, empolgados, fomos à pé até a Recoleta, via Avenida del Libertador, a caminho do Hard Rock Cafe. Fiquei muito surpresa, ao chegarmos na esquina com a Avenida Alvear, ao avistar, à nossa direita, o prédio imponente do campus de Direito, da Universidade de Buenos Aires, onde pude admirar tão formosa arquitetura.

O Hard Rock Café é um ambiente muito agradável, os atendentes se preocupam em bem servir e entender os pedidos. Os preços praticados no local são um pouco inferiores ao das filiais do Brasil, e aceitam tanto pesos argentinos, como dólares americanos e reais.

Na manhã seguinte, fizemos city tour. Visitamos os principais pontos turísticos da cidade. Seguindo pela Avenida Del Libertador, fomos em direção à Recoleta, passamos pelo famoso cemitério. Vimos as embaixadas, as principais vias de Palermo, o Obelisco, a Casa Rosada e a Catedral Metropolitana de Buenos Aires, na Plaza de Mayo, que fora dirigida pelo Cardeal Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco.

Em seguida, fomos em direção ao histórico bairro de La Boca, bairro operário, de colonização italiana. Passamos no entorno do La Bombonera, até chegarmos ao Caminito. O Caminito consiste numa pequena via, com pequenas habitações coloridas com paredes de zinco, características marcantes dos cortiços portenhos. Recomendo cuidado com os pertences, pois há casos de roubos e furtos, com fuga para as ruelas de La Boca. Outro cuidado importante é com os supostos dançarinos de tango, que também estão na Plaza de Mayo, caracterizados, que tentam convencer os passantes a tirarem fotos, te cobrando por elas posteriormente. Próximo dali, localiza-se a Casa Amarilla, local com pequenos stands de artigos de couro e souvenirs, câmbio, sanitários e lanchonete. Se quiser comprar pequenas lembranças, os preços praticados ali são muito melhores que no centro.

No retorno, voltamos pelo famoso bairro nobre de Puerto Madero, como seus imóveis caríssimos, diques, universidades privadas e lofts sofisticados.

Pela tarde, demos uma passadinha na calle Florida, a duas quadras de onde estávamos hospedados. Recomendo cuidado aos rapazes e moças que anunciam câmbio a cada três metros. Segundo avisos, além do perigo de ser encaminhado para o interior dos prédios, em companhia de desconhecidos, há o risco de seus reais, dólares ou pesos serem trocados por notas falsas. Demos uma passadinha na Galerias Pacífico e, de cara, bati os olhos na loja da MAC. Infelizmente, a loja era muito simples, e seus preços são semelhantes aos da Europa. Vale a pena comprar o artigos da marca em lojas físicas e on line no Brasil, pois até no Duty Free da volta, no Aeroparque, os preços são absurdos, mas vale a pena comprar vinho e cosméticos da Dior, Chanel, L´oreal, Clinique, Sisheido, Victoria Secret´s e Revlon. A mesma recomendação serve para perfumaria, que são bem razoáveis, comparados aos preços no Brasil. Dizem que no  Ezeiza há mais variedade de produtos.

Foi-se o tempo em que os preços  eram camaradas para alimentação e compras. Com a crise argentina, e a sua vocação turística, este é o principal meio de emprego e renda para a população. Vi muitos moradores de rua, pedintes e cantores líricos de rua. Na volta do city tour, passamos pelas villas, que são o equivalente das favelas no Brasil.

Pela noite, fomos ao show de tango com jantar na Esquina Carlos Gardel. O lugar é primoroso, atendimento impecável, decoração que impressiona, menu fantástico e show com um octeto de músicos, dois cantores e seis casais de dançarinos profissionais. O valor do jantar com show, na plateia, que é mais em conta, é US$ 140,00. Posso dizer com segurança que são os 140 dólares mais bem gastos na capital argentina.

No dia seguinte, reservamos para ir no El Ateneo Grand Esplendid, na Santa Fe. Segundo consta, ela é segunda livraria mais charmosa e frequentada do mundo. Lá, aceitam dólares americanos, e os preços são consideráveis. Arriscamos fazer um passeio de trem metropolitano, até a Plaza de Mayo. A tarjeta, que é o passe, custa 5 pesos, e os mapas do metrô, com suas estações e conexões são bem orientadas. O trajeto é subterrâneo e muito fácil de ser compreendido. Umas das melhores características de Buenos Aires são as ruas muito bem sinalizadas. Se ficar hospedado nos bairros próximos ao centro, poderá ir a pé ou de trem tranquilamente. Não usamos serviços de táxi e ônibus durante nossa estadia.

Como disse no início, esta viagem foi muito aguardada, sobretudo para testar meu espanhol, já que nunca me imergi na prática diária e intensa do idioma e, embora tenha aprendido há quase vinte anos, deu de desenferrujar, e me impressionei por me dar conta que estou razoavelmente bem na conversação.

Por hora, são estas as minhas impressões inicias. Em novembro, retorno para a cidade para um evento acadêmico, no qual apresentarei trabalho, na Universidad de Buenos Aires, e espero que a experiência seja tão maravilhosa quanto foi a desta viagem.

Bullying ou ditadura do politicamente correto?

Venho me questionando, há algum tempo, sobre o comportamento ofensivo de alguns indivíduos em face de outros. Alguns preferem acreditar que vivemos numa “ditadura do politicamente correto”, onde não é possível fazer graça ou estimular o riso sem ferir algum código moral imposto.

Não vivemos numa ditadura. A liberdade de expressão, inerentes a uma democracia, pode ser claramente exercida, de modo público e privado.

Como se explica a suposta generalização do bullying? Não se pode mais chamar o gay de veado, a lésbica de sapatão, o negro de picolé de piche, o gordo de rolha de poço, a mulher trans de “o” travesti?

Na verdade, isto nunca foi correto. Muitos comportamentos preconceituosos nos foram ensinados em casa, na escola, incentivado pelos coleguinhas, nas ruas, nos programas de TV. Lembro-me do programa dos Trapalhões, onde o Mussum era, por vezes, caracterizado como o “preto pinguço”, e aceitávamos passivamente. Renato Aragão, em uma entrevista, disse que estas piadas, naquela época, não ofendiam ninguém.

Creio que esta mudança de paradigma se deu por meio das lutas incansáveis dos movimentos sociais. A partir do momento que cada grupo se organizou, se estabeleceu e mostrou ao que veio, certos comportamentos passaram a ser inaceitáveis.

Como podemos saber se nosso comportamento é digno de risos e motivo de piadas, e não lesivo para um grupo ou indivíduo? Use de empatia, alteridade, sororidade ou outridade, como seja. Se coloque no lugar no outro, contextualize as condições sociais e históricas destes indivíduos.

Mulheres ainda são categorizadas como sendo seres de segunda classe. São tão capazes, física, psicológica e mentalmente quanto os homens. Fazer piada sobre a condição feminina faz de você um covarde.

Homossexuais sofreram e sofrem, na pele, a discriminação, o desprezo, o desrespeito, e ainda pagam com a vida por sua orientação sexual, que não é uma mera escolha de vida.

As sociedades anglo e latino americana têm uma dívida histórica gigantesca com os descendentes de escravos africanos. Políticas afirmativas para os negros não servem para alimentar um suposto vitimismo. Verifique fotos de formatura de cursos de Medicina, e verá a parcela ínfima de formandos negros, e compare com os números da população carcerária brasileira, no que tange à raça dos apenados. As emissoras de TV aberta mostram claramente o lugar do negro na sociedade, em sua posição de subserviência e submissão; nas periferias; no corpo hiperssexualizado da mulher negra do carnaval; na mão de obra barata e desqualificada; na construção civil; a empregada doméstica que dorme no emprego, “quase da família”, os rapazes negros sendo alvo fácil em batidas policiais.

O padrão de beleza imposto discrimina quem está fora dele, sobretudo para quem está fora do peso ideal, mesmo que a pessoa esteja saudável, do ponto de vista médico. Somos bombardeados com propagandas com modelos de padrão anoréxico, com fossa clavicular abissal, barriga negativa e aquele espaço entre as coxas onde cabe um caneco de chopp (isso me dá uma aflição extrema).

Do mesmo modo, não há graça em fazer piadas com pessoas trans, sobretudo, numa época em que mais de setenta transexuais foram assassinados no país, uns optando pelo suicídio, outros se obrigando a viver na prostituição e na clandestinidade.

Quando quiser fazer piada, reflita: é um indivíduo ou grupo vulnerável? Se eu fizesse parte deste grupo, gostaria de ser motivo de chacota? O bullying não é mera brincadeira entre amigos. E se um amigo insiste em fazer piada contigo, onde somente ele acha graça, te aconselho seriamente a reavaliar esta amizade.

Sobre fitas K7, vinis e vitrolas

Alguns dos momentos mais memoráveis de minha vida são relacionados à música. Não sou cantora, e carrego comigo a frustração de não saber tocar nenhum instrumento.

Minhas lembranças mais remotas dão conta de meu pai, na sala de casa, dançando comigo as músicas do grupo sueco ABBA, momento este que, visualmente, lembro somente do forro de madeira de cor azul.

Minha mãe tinha uma radiola, uma versão melhorada, fabricada pela Frahm, todos os discos do ABBA, alguns da Dona Summer, Peter Tosh e outros ícones da disco. Aquele barulhinho, ao posicionar a agulha sobre o vinil, momentos antes da execução da música, era mágico. Eu tinha alguns disquinhos, com músicas e histórias infantis, coloridos.

Era uma aventura ouvir fitas K7. Para comprá-las, tínhamos que viajar uns 80 km, numa época em que não existiam as fitas piratas. Lembro da revolução causada pela primeira rádio FM da minha cidade, e do costume de ligar na rádio para pedir músicas, tendo o cuidado de deixar a fita engatilhada, para apertar o REC, no tempo exato, com o bordão da emissora.

E quando a fita enrolava? Era o caos, resolvido com paciência e uma caneta BIC.

Deixo, neste post inicial, a minha música preferida do quarteto sueco.