Bullying ou ditadura do politicamente correto?

Venho me questionando, há algum tempo, sobre o comportamento ofensivo de alguns indivíduos em face de outros. Alguns preferem acreditar que vivemos numa “ditadura do politicamente correto”, onde não é possível fazer graça ou estimular o riso sem ferir algum código moral imposto.

Não vivemos numa ditadura. A liberdade de expressão, inerentes a uma democracia, pode ser claramente exercida, de modo público e privado.

Como se explica a suposta generalização do bullying? Não se pode mais chamar o gay de veado, a lésbica de sapatão, o negro de picolé de piche, o gordo de rolha de poço, a mulher trans de “o” travesti?

Na verdade, isto nunca foi correto. Muitos comportamentos preconceituosos nos foram ensinados em casa, na escola, incentivado pelos coleguinhas, nas ruas, nos programas de TV. Lembro-me do programa dos Trapalhões, onde o Mussum era, por vezes, caracterizado como o “preto pinguço”, e aceitávamos passivamente. Renato Aragão, em uma entrevista, disse que estas piadas, naquela época, não ofendiam ninguém.

Creio que esta mudança de paradigma se deu por meio das lutas incansáveis dos movimentos sociais. A partir do momento que cada grupo se organizou, se estabeleceu e mostrou ao que veio, certos comportamentos passaram a ser inaceitáveis.

Como podemos saber se nosso comportamento é digno de risos e motivo de piadas, e não lesivo para um grupo ou indivíduo? Use de empatia, alteridade, sororidade ou outridade, como seja. Se coloque no lugar no outro, contextualize as condições sociais e históricas destes indivíduos.

Mulheres ainda são categorizadas como sendo seres de segunda classe. São tão capazes, física, psicológica e mentalmente quanto os homens. Fazer piada sobre a condição feminina faz de você um covarde.

Homossexuais sofreram e sofrem, na pele, a discriminação, o desprezo, o desrespeito, e ainda pagam com a vida por sua orientação sexual, que não é uma mera escolha de vida.

As sociedades anglo e latino americana têm uma dívida histórica gigantesca com os descendentes de escravos africanos. Políticas afirmativas para os negros não servem para alimentar um suposto vitimismo. Verifique fotos de formatura de cursos de Medicina, e verá a parcela ínfima de formandos negros, e compare com os números da população carcerária brasileira, no que tange à raça dos apenados. As emissoras de TV aberta mostram claramente o lugar do negro na sociedade, em sua posição de subserviência e submissão; nas periferias; no corpo hiperssexualizado da mulher negra do carnaval; na mão de obra barata e desqualificada; na construção civil; a empregada doméstica que dorme no emprego, “quase da família”, os rapazes negros sendo alvo fácil em batidas policiais.

O padrão de beleza imposto discrimina quem está fora dele, sobretudo para quem está fora do peso ideal, mesmo que a pessoa esteja saudável, do ponto de vista médico. Somos bombardeados com propagandas com modelos de padrão anoréxico, com fossa clavicular abissal, barriga negativa e aquele espaço entre as coxas onde cabe um caneco de chopp (isso me dá uma aflição extrema).

Do mesmo modo, não há graça em fazer piadas com pessoas trans, sobretudo, numa época em que mais de setenta transexuais foram assassinados no país, uns optando pelo suicídio, outros se obrigando a viver na prostituição e na clandestinidade.

Quando quiser fazer piada, reflita: é um indivíduo ou grupo vulnerável? Se eu fizesse parte deste grupo, gostaria de ser motivo de chacota? O bullying não é mera brincadeira entre amigos. E se um amigo insiste em fazer piada contigo, onde somente ele acha graça, te aconselho seriamente a reavaliar esta amizade.

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