Ṣé mo setumo ara mi

Não sou água, nem ar e nem fogo. Sou terra, pés no chão, com medo de altura, de me queimar, e também não sei nadar.

Não sou morena. Sou negra, não posso me distinguir de minha raça, baseada numa suposta cartela de cores que me rotula.

Não sou delicada. Tropeço, falo palavrão, me irrito facilmente e não me importo com a opinião alheia.

Não tenho ascendência europeia. Meus ancestrais foram trazidos pra cá contra sua vontade, e estarei sempre conectada às minhas raízes.

Não tenho cabelos lisos. Aprendi a amar meu cabelo, aceitá-lo e usá-lo como instrumento político.

Não sou magra, não tenho músculos definidos, nem barriga chapada. Tenho dobras, reentrâncias, características únicas e perenes.

Não sou cristal, diamante ou esmeralda. Sou basalto, de baixo escalão; bruta, moldada pelo tempo e pelo calor das lutas da vida.

Não sou rosa, nem orquídea. Sou cacto, resistente, persistente e adaptável.

Não sou sinfonia, ópera ou música de câmara. Sou ska, atabaque e percussão.

Não sou seda, chiffon ou cetim. Sou algodão cru, simples e sustentável.

Hoje já sei quem sou, os trilhos da minha vida estão carrilhados. Minha nau pode padecer nas tempestades, raios e trovões, mas sempre ocorrerá a calmaria. Tenho a minha rosa-dos-ventos, o controle do leme e um horizonte a conquistar.

A dor que não se vê

Dia sim, outro também,

carrego um peso do tamanho do mundo

a ignorância me fazia tão bem

e inerte às agruras, no fundo.

Quando superei as minhas dores

e tudo parecia em paz

meus olhos se abriram, e vi

o quanto a vida é fugaz.

Um dia a mais, repito comigo

sem ilusões, mentiras e distrações

Preciso dormir, agora, e refletir

não me servem mais as orações.

Ainda que eu sofra, e continue sentindo

esta agonia, que nada tem a ver comigo

sempre avante, darei alguns passos

ignoro o ludíbrio, levanto a cabeça, e litigo.

Bon appétit!

Meryl Streep é considerada, por muitos, como uma das melhores atrizes de todos os tempos. Os mais pessimistas podem dizer que ela é a pior perdedora do Oscar, já foram 16 indicações em que ela venceu apenas duas vezes. Um dos motivos, são indicações por filmes como esse. Claro que ela faz um trabalho competente como sempre, mas não é uma interpretação tão arrebatadora assim. Talvez a academia fique tão ansiosa pra homenageá-la, que com certeza é a maior atriz viva, que qualquer atuação lhe vale uma indicação. Aqui, ela se junta a Amy Adams, que já acumula 3 indicações sem vitórias.
O  filme que é baseado na vida de duas mulheres. Acompanhamos a vida das duas em época distintas. Julia se muda para Paris para acompanhar o marido que trabalha na embaixada. Cansada de ficar sem fazer nada, ela tenta diversos cursos para aprender alguma coisa, até que vai parar num curso de culinária avançada, a famosa Le Cordon Bleu, em uma sala onde só tem homens. Julie tinha uma carreira promissora, mas acabou tendo que trabalhar em um cubículo atendendo telefonemas o dia inteiro.
O que as une é a culinária francesa e o desejo de compartilhar esse conhecimento com as outras pessoas. Julia, através de um livro. Julie, através de um blog na Internet. O desejo das duas, porém, é bem diferente. Julia quer um livro que seja revolucionário, que mude o mundo, talvez. Julie quer apenas elevar sua abalada auto estimada. Julia leva 8 anos para terminar o livro e tentar publicá-lo, Julie quer pegar todas as 524 receitas do livro e cozinhá-las em um ano.
As duas são, aparentemente, adoráveis, mas depois de um tempo as duas começam a ficar irritantes. Uma com suas obsessões perfeccionistas, e outra que é insegura demais e tem crises pelos motivos mais bobos.
Geralmente os filmes que mostram culinárias, tendem a deixar o espectador com vontade de comer aquelas comidas maravilhosas, ou pelo menos com vontade de conhecer aquela culinária.

Julie tenta estabelecer um paralelo entre sua vida e a de Julia Child, já que a autora de livros de receitas decidira se matricular no Le Cordon Bleu, após se casar e se mudar para Paris, como uma maneira de também fazer algo significativo. Ela tinha 32 anos, não trabalhava e não sabia cozinhar, mas adorava comer. Ela não só acabou fazendo a alegria do esposo, gourmand notável, como também acabou ficando conhecida por seu bom humor no programa de tv “Bon Appétit”, onde buscava desvendar os mistérios da cozinha francesa para os “meros mortais”.

Nessa leitura orgiástica de sabores, sobressai o humor bastante ácido e, inúmeras vezes, azedo de Julie Powell. Ela tenta contar sua experiência sem cair na pieguice, com piadinhas, ironia e uma pitada de auto-depreciação, mas acaba oferecendo um relato deveras inspirador. Algo que afasta o texto do tom “mala conselheira” que ele poderia assumir é que ela xinga muito, resmunga demais, e às vezes é tão, mas tão chata, que sentimos vontade de lhe mandar calar a droga da matraca. Acontece que é esse seu jeito imperfeito que a aproxima de nós. Julie é ansiosa, mimada, histérica e muito desorganizada. Tem de administrar o projeto morando numa espelunca decadente, tendo de pegar o metrô, cozinhando até tarde e cuidando de seu gato. É possível se identificar com ela porque, enquanto tenta fazer algo importante com um mínimo de seriedade e comprometimento, ela enfrenta inúmeras dificuldades: a imundície do apartamento, a bizarrice de certas receitas. É claro que ela surta, inúmeras vezes, ao longo do processo, mas o apoio dos amigos, parentes e leitores ajuda-a a seguir em frente e levar o projeto até o fim.

Concluída a meta, Julie alcançou notoriedade, reconhecimento e o contrato para publicar o livro. Mais que isso, ela ganhou força e recobrou a autoestima. Seu relato não é exatamente leve, tem momentos divertidos e dramáticos, e até mesmo algumas reflexões inteligentes. Por isso, aproveitando-me novamente do jargão culinário, posso dizer que o livro se apresenta em camadas, como um bolo com diferentes recheios. Desafia o nosso paladar, mas com algo ainda de familiar e aconchegante.

Precisamos falar sobre a Violência Obstétrica

Segundo o Ministério Público do estado de São Paulo, a violência obstétrica pode ser identificada durante a gestação, no momento do parto, que inclui o trabalho de parto, o parto em si e o pós-parto, e no atendimento de complicações de abortamento.

Este assunto veio à baila há pouco tempo. Não se falava nas agruras sofridas por mulheres gestantes e parturientes, sobretudo as mulheres pobres, usuárias do Sistema Único de Saúde. Mas engana-se quem pensa que isto é exclusividade da população mais vulnerável.

Como citado na cartilha do Ministério Público do estado de São Paulo, a violência obstétrica praticada durante a gestação caracteriza-se pela negligência no atendimento à mulher, nas ofensas e humilhações praticadas pela equipe de saúde e no agendamento de cesáreas sem indicação. O excesso de cesáreas no Brasil é praticado, sobretudo, por médicos de planos de saúde, cujo trabalho é drasticamente reduzido a uma cesárea, que dura em média vinte minutos, ao invés de realizar o acompanhamento durante todo o trabalho de parto e sua dinâmica, que pode levar muitas horas. Cesáreas sem indicação corroboram para a ocorrência de riscos tanto para a mulher quanto para o bebê.

O alto índice de cesáreas no Brasil levou o Governo Federal a tomar medidas para reduzir o número deste procedimento, que ocorre em torno de 85% na rede conveniada e particular, contrário ao que recomenda a Organização Mundial da Saúde.

Um momento crucial para a mulher, o trabalho de parto, onde se preconiza a presença de um acompanhante, à escolha da mulher, é totalmente negligenciada. A parturiente, quando na sala de pré-parto, encontra-se sozinha, impedida de deambular, conectada a um monitor cardiofetal e à infusão de ocitocina, para estimular as contrações, sem nenhum conforto físico e psicológico, enfrentado dores extremas. O excesso de toques vaginais, justificados pelos profissionais como sendo imprescindíveis para a verificação da dilatação do colo uterino, é outro ato agressivo, extremamente invasivo e, por vezes, doloroso. No ápice dessas dores, quando algumas chegam a gritar, vem a conhecida frase “na hora de fazer não gritou!”, ou “não grite, assim assusta outras mães!”. Raramente se faz a analgesia correta, como eu mesma pude vivenciar, no parto do meu primeiro filho. O que tive foi uma injeção intramuscular de meia ampola de dolantina com meia de fenergan, que me fazia desmaiar no intervalo das contrações, e fizeram meu filho nascer praticamente dopado.

Outra agressão comumente praticada é a realização da episiotomia. Esta incisão, justificada para que haja aumento da abertura vaginal para a saída do bebê, é a causa de lesões irrecuperáveis, cujos danos ultrapassam os aspectos físicos da mulher. Não é raro ver mulheres com infecção dessas incisões, lesões permanentes de nervos e até mesmo lacerações graves e fístulas reto-vaginais, trazendo grande dano psicológico.

Qualifica-se também como violência obstétrica aquelas praticadas por profissionais da saúde às mulheres em complicações por abortamento, que vão desde a humilhação e constrangimento, até demora ou negação ao atendimento, com a ocorrência de ameaças e coação por parte da equipe, alegando este ser crime e passível de denúncia, sendo o abortamento intencional ou acidental.

Estima-se que uma a cada quatro mulheres já sofreram violência obstétrica, e a maioria delas sequer cogitava que estes maus tratos se caracterizavam como uma violação.

Independente de onde a mulher busque o atendimento durante a gestação, parto ou em caso de abortamento, ela tem direito a um atendimento humanizado, eficiente e isento de opiniões ou crenças pessoais. O impedimento às condições de dignidade, como maus-tratos, constrangimento, impedir a presença de um acompanhante e a realização de procedimentos desnecessários ou sem o consentimento da mulher é violência obstétrica. Em caso de ocorrência, o Ministério Público do estado de São Paulo recomenda que se exija a cópia de seu prontuário médico na instituição de saúde, e procure a Defensoria Pública. Outro meio de fazer denúncias é pelo telefone 180 (Violência contra a Mulher) e 136 (Disque Saúde).