Consciência Negra

Meu avô paterno nasceu na década de 20, no interior de Santa Catarina. Perdeu a mãe precocemente, e como meu bisavô não poderia cuidar dele e de seus irmãos, os destinou aos cuidados de outros.

Com cerca de cinco anos de idade, ele acordava às quatro da manhã e ia lidar com gado e outros serviços do campo. Não lhe era permitido dormir nem comer com os da casa, nem dentro dela. Apanhava, era insultado, o chamavam de “negrinho”. Ele suportou uma vida análoga à escravidão, muita humilhação e o preconceito na pele.  Este homem, quando me contava estas histórias, tinha grandes feridas na alma, dolorosas e abertas, mesmo na altura de seus mais de oitenta anos. Infelizmente, eu não tive maturidade suficiente para ouvir e contextualizar suas vivências, e sinto que perdi este elo que poderia ter nos unido.

Cresci no município onde havia a maior colônia de japoneses no estado. Admirava as tradições, a cultura e os laços que os mantinham unidos. Tive colegas com ascendentes europeus, e nesta cidade havia uma sociedade recreativa italiana. Algo que é muito comum, no sul, são os Centros de Tradições Gaúchas, com identidade e modus vivendi próprios, e ficava embevecida com toda a sua manifestação. João Luiz Corrêa, grande intérprete de música tradicionalista, diz que para ser gaúcho não precisa ser nascido no Rio Grande do Sul, basta amar as coisas deste estado. Quando cheguei ao Paraná, tive a oportunidade de conhecer um pouco das culturas polonesa e ucraniana, e meus olhos brilhavam nas apresentações folclóricas.

Ainda assim, sempre me senti uma estrangeira, sem raízes, nem tradições. A metáfora “grãos de areia ao vento” cabe muito bem ao que eu sentia.

Minhas referências eram brancas, a cor de pele era branca. O formato ideal do nariz era o afilado, os cabelos lisos, loiros ou castanhos. Odiei a cor da minha pele, em contraste com a das minhas amiguinhas. Odiei meu nariz, e planejei por anos uma rinoplastia. Odiei meus cabelos, me submetendo à guanidina e aos aldeídos.

Uma mudança gradual se operou em minha vida. Aos poucos, desenvolvi minha auto-estima, em consonância com as vivências sociais e acadêmicas. Violeta Parra disse que “y así como todo cambia, que yo cambie no es extraño”, e minhas leituras, questionamentos e problematizações causaram a ressignificação de meus paradigmas.

Mas a gota d´água foi a apresentação que assisti do Balé Folclórico da Bahia. A música, a percussão, a performance dos bailarinos, a voz dos cantores, o figurino, a iluminação. Era como um encontro de um familiar, cuja existência era ignorada. Naquele momento, senti que tinha encontrado a lacuna que me faltava, embora eu não sentisse esta ausência de maneira consciente. Tudo fez sentido, a verdadeira sensação de pertencimento, a reconstrução do meu amor próprio, em parte dilapidado pelo preconceito e pela condição de inferioridade.

Esta é a minha Consciência Negra. A Consciência da nossa tradição pela oralidade, pois dificilmente temos a possibilidade de termos um perfil no My Heritage, haja vista a condição histórica da escravidão. É a Consciência de que  avançamos pouco, da existência fática do racismo, e de que ainda temos prejuízos. É a Consciência de que a luta continua, para que aquela linha que nos separa dos demais, como disse Viola Davis, seja extinta. Não é a condição humana, que minimiza e desqualifica a luta pela igualdade racial.

Consciência Negra é lutar por mim e pelos que têm a mesma vivência, não permitindo que usurpem o nosso lugar de fala e silenciem nossa voz.

 

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Um comentário sobre “Consciência Negra

  1. Pingback: O turbante da discórdia | Mississippi Goddam

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