Estamos criando uma geração de babacas

Considerando que a sociedade vive em pleno desenvolvimento, com o surgimento de novas configurações e padrões de comportamento, o que mais tem me preocupado é a educação que está sendo destinada as nossas crianças e adolescentes.

Nasci nos anos 80, uma época anterior à redemocratização do país, marcada pelas privações, inflações galopantes e pelo altos índices de mortalidade infantil.

Longe de mim fazer uma ode saudosista, mas algo que a maioria de nossa geração aprendeu foi dar o  valor às conquistas realizadas. Não tínhamos tanta tecnologia disponível, a educação era rígida, nos moldes patriarcais. Não se levantava da mesa de jantar sem pedir licença, pedíamos a benção aos mais velhos, não ousávamos falar em voz alta com nossos pais. As palavras de ordem era obrigado, por favor, com licença. Era inadmissível se dirigir a algum adulto sem se reportar a ele como senhor ou senhora.

Os avanços da psicologia infantil, a valorização da criança e adolescente como seres dignos de direitos e cuidados e a entrada em vigor do Estatuto da Criança e do Adolescente foram essenciais para a efetivação da segurança e bem estar destes.

No auge dos anos noventa, pipocaram livros e manuais de como criar filhos, sendo pais libertários e amigos, tendo como único instrumento para a resolução de conflitos o diálogo.

No entanto, creio que na intenção de criar filhos felizes e imunes às agruras da vida, colocam a disciplina, o cultivo do respeito pelo próximo e da autonomia de lado, resultando em crianças e jovens que têm suas vontades realizadas a qualquer custo, alimentando o egocentrismo e o desvalor ao sacrifício alheio.

Ao passo que houve um benefício imensurável na defesa da integridade física, psicológica e social da criança, os pais perderam a mão em impor limites às suas crias. Uma visita ao shopping corrobora para esta constatação: crianças gritando com os pais, dando ordens, se jogando no chão, gritando impropérios, pais envergonhados que subornam os pequenos com a realização de seus desejos mais bizarros, em troca do fim da birra constrangedora.

Esta ausência de limites tem reflexo na vida social. Alunos que desrespeitam professores,  jovens que ofendem os mais velhos, queimam indígenas e travestis por diversão, vandalizam o patrimônio público. E  nova corrida para os psicólogos, para entenderem o porquê dessas atitudes.

Creio que, no decorrer destes anos, esquecemos de como devemos criar filhos, e não existe um manual para tal. Pais querem sempre o melhor para seus filhos, sem sombra de dúvidas. Mas devem entender que eles precisam, além de cuidados,  aprender a cultivar o respeito, a gentileza, o amor ao próximo e o altruísmo. Precisam aprender o valor das coisas, do trabalho dos pais, ter consciência social e a reconhecer seus privilégios.

Como disse Saint-Exupéry, nos tornamos responsáveis por aquilo que cativamos. Se impusermos limites, refreando seu comportamento potencialmente imprudente, ensinando o valor primordial do respeito ao outro e ao meio ambiente, cultivando valores como honestidade e serenidade, possivelmente deixaremos no mundo as nossas marcas, através dos bons cidadãos que serão os nossos filhos. Do contrário, seremos sucedidos por pequenos fascistas, egoístas, insensíveis e hipócritas.

Ditadores

 

 

Correr

O narrador reflexivo de “Estação Carandiru” volta a nos encantar com “Correr”, onde relata seus mais de vinte anos de dedicados às maratonas, com informações científicas atuais acerca de uma das atividades esportivas mais praticadas no mundo.

Ele inicia seu livro contando a experiência que marcara o pontapé inicial na prática da corrida: um encontro com um amigo de infância que, após saber que Drauzio completaria cinquenta anos em breve, disse uma frase que ficaria na mente do brilhante oncologista: Cinquenta anos, o início da decadência da vida do homem.

Como médico, que incentiva seus pacientes, leitores e expectadores, dando conselhos para que tenhamos uma vida longa e saudável decide, naquele momento, que comemoraria seus cinquenta anos correndo a Maratona de Nova Iorque.

Nesta época, lá pelos idos dos anos 90, ainda se recomendava repouso na terceira idade, não sendo comum a prática da corrida, exceto por atletas profissionais. Quem era visto correndo sozinho nas ruas era tido como louco, excêntrico ou até mesmo fugitivo de alguma tragédia.

A cada maratona completada, desde a tradicional de Nova Iorque, passando por Blumenau, Buenos Aires, Tóquio e a concorridíssima Maratona de Boston, suas experiências e conselhos sobre a preparação, o transcorrer  da maratona, mais informações atualizadas sobre os mais recentes estudos da Medicina Esportiva, sagra este grande escritor em seus mais de vinte anos na prática da corrida, provando que é possível, para a maioria da população, a prática e a colheita dos benefícios a curto, médio e longo prazo. Basta ter condições médicas, disciplina, um bom par de tênis e a vontade de ganhar as ruas.

Correr