O dilema da amamentação

(Texto publicado em colaboração com o blog feminista Não me Kahlo)

A maioria da população está ciente sobre a orientação do Ministério da Saúde, Sociedade Brasileira de Pediatria e Organização Mundial da Saúde sobre os benefícios da amamentação, tanto para a mãe quanto para o bebê. No entanto, mulheres são bombardeadas com orientações de alguns pediatras e propagandas de grandes companhias, com anúncios milionários ressaltando a qualidade e segurança das fórmulas e suplementos alimentares para crianças.

Fugindo do aspecto capitalista das grandes indústrias alimentícias na busca incessante pelo lucro, hoje prefiro focar em um dos sujeitos do processo da amamentação: a mulher.

 A romantização da maternidade e seus efeitos sobre os ideais da mãe perfeita recaem sobre a mulher, lhe infringindo a abnegação e sujeição às imposições sociais, tornando o seu papel coadjuvante, e não protagonista deste processo. A mãe, que deseja muito amamentar o seu filho, é ignorada, e padece em seu inferno pessoal.

 A mulher que, por algum motivo, deixa de amamentar o bebê, é demonizada, sem que tenha algum auxílio ou orientação, recebendo a alcunha de egoísta, preguiçosa ou relapsa. Onde já se viu, uma mulher deixar de seguir a natureza de amamentar a sua cria? Aquelas que ousam amamentar, igualmente são recriminadas por amamentar em público, como o caso de uma mulher que foi assassinada por uma paramilitar simpatizante do ISIS na Síria, por cometer ato indecente e mostrar suas mamas em público.

 Muitas mulheres, no início da amamentação, adquirem fissuras mamárias, que são extremamente dolorosas. Sem a orientação correta, além da dor excruciante, estas fissuras podem evoluir para uma mastite, que é uma infecção grave nas mamas. Como se não bastasse a dor, a culpa lhe assalta ante à possibilidade de deixar o bebê com fome, pois têm a consciência que, naquele instante, ele depende única e exclusivamente dela. Neste período, mãe, sogra, tia, madrinha, vizinha e cunhada surgem, e na ânsia de ajudar, tornam esta tarefa aparentemente simples numa Via Crucis, impondo e reforçando a obrigação feminina de amamentar.

 Muitas mulheres, ao fazerem seu pré-natal na rede de saúde suplementar, não têm seus anseios e dúvidas atendidos pelo profissional médico. Passado o parto e o puerpério imediato, pula-se para as consultas pediátricas periódicas, que têm como foco o bebê, e se este não puder ser amamentado, não importando o nível de dificuldade, imediatamente e sem objeção, é recomendado o aleitamento artificial, com fórmulas caras, muitas vezes fora da realidade econômica da mulher brasileira. Este processo doloroso representa um fracasso para a mulher, que se julga incapaz de alimentar seu filho, fazendo-a padecer, sozinha e silenciosamente.

 Esta falha grave poderia ser evitada se, no pré-natal, a gestante tivesse o acompanhamento e preparação de um profissional da Enfermagem para tanto, já que este tem formação e habilidade para conduzir a gestante, puérpera e lactante neste processo. Se a mãe tiver interesse em amamentar, e tiver um profissional para que a oriente e conduza neste processo, criando uma relação de confiança com este, certamente obterá sucesso. Não é incomum observarmos, nos grandes centros urbanos, o grande número de mulheres que interrompem a amamentação por encontrarem dificuldades que seriam facilmente resolvidas com a intervenção de um Enfermeiro.

 Neste sentido, a saúde pública, através do Sistema Único de Saúde, na atenção primária, têm capacitado seus profissionais para este intento. A realização de atividades e oficinas de gestantes coordenados por profissionais da Enfermagem, na Unidade de Saúde em que a mulher é vinculada, dão segurança e as empoderam, tendo como efeito a obtenção do sucesso no processo de lactação.

 Apesar de termos consciência da fragilidade e vulnerabilidade de uma criança neste estágio inicial de sua vida, é de suma importância que seja destinado o devido cuidado para a mulher, dando-lhe instrumentos para que adquira confiança no exercício de uma maternidade segura e tranquila.

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 (Imagem da campanha de incentivo à amamentação do Ministério da Saúde e Sociedade Brasileira de Pediatria)

Ele não te bate

Preste atenção nos detalhes.
Ele não te bate, mas na primeira oportunidade liga o notebook da sua irmã para abrir sua rede social e ler suas conversas.
Ele não te bate, mas te enche de perguntas sobre o passado e te julga por cada pessoa que você tenha se envolvido.
Ele não te bate, mas analisa seus amigos e separam entre os que servem pra andar e os que não servem.
Ele não te bate, mas a lista dos amigos que você pode andar fica cada dia mais restrita e você mais sozinha.
Ele não te bate, mas não gosta que você tenha senha no celular.
Ele não te bate, mas se ofende toda vez que você quer sair só com suas amigas.
Ele não te bate, mas reclama das suas roupas por vezes curtas, por vezes extravagantes demais.
Ele não te bate, mas reclama da sua melhor amiga o tempo todo, amiga esta que ele já ficou.
Ele não te bate, mas duvida da sua inteligência só porque você prefere sertanejo e não rock/blues e poesia.
Ele não te bate, mas não quer que você faça o mestrado longe dele.
Ele não te bate, mas não quer que você tenha um emprego que exista a chance de ficar depois das 18 horas.
Ele não te bate, mas acha que você (quando casarem) tem que ter uma conta conjunta no banco com ele.
Ele não te bate, mas faz você se sentir impotente e com medo de ficar sem ele.
Ele não te bate, mas faz você pensar que a vida sem ele não vai mais ter importância.
Ele não te bate, mas você começa a mentir sempre com medo do que ele possa pensar e dizer.
Ele não te bate, mas você se afasta da sua família, dos seus amigos, e de tudo que possa (de longe) causar uma briga.
Ele não te bate, mas sente muito ciúmes, afinal ele te ama demais.
Ele não te bate, mas dissolve seus sonhos.
Ele não te bate, mas te chantageia sem que você se dê conta.
Ele não te bate, mas te impõe as vontades dele, os amigos dele, as músicas dele, os passeios dele.
Ele não te bate, mas você perde sua personalidade e sua vontade.
Cada dia mais e mais sozinha, mais e mais isolada do mundo e presa num relacionamento sem futuro. Cada dia com mais medo do que possa te acontecer por decisão dele ou por decisão sua mesmo. A tristeza se torna maior do que os poucos momentos bons.
A menina cheia de vida, que tinha lindos planos, dá lugar à uma menina de cabeça baixa, sem muitos sorrisos, mal-humorada, que só pensa em agradar aquele moço que namora e só pensa no quão bom ele é por aguentar os tantos defeitos que ela tem.
VOCÊ É ESSA MENINA? Então preste atenção nos detalhes e não deixe nenhum passar. Se você se identificou com algum deles, mesmo que seja um só, dê adeus pra esse relacionamento. Sem olhar pra trás.
Não deixe ninguém escolher por você e nem te dizer quem você é. Se espelhe em mim e em tantas moças que por tudo isso passaram, se espelhe nas histórias de todos os dias e saiba, principalmente, que você é merecedora de amor, muito amor.
Corre atrás da sua felicidade e corre desse relacionamento abusivo que é a única coisa que você não merece. (Taynara Pouso)mulher-triste-depressao-44456