Just breathe

Vivemos num mundo caótico. Excesso de informação, dicas, orientações, life coach, life style…

Durma por oito horas, faça exercícios físicos, faça cross training, beba suco detox, não consuma glúten, dialogue com os filhos, transe três vezes na semana, se locomova de bicicleta, salve as baleias, tome chá verde, veja documentários, não use shampoo com sulfatos, escove os dentes com açafrão, não use anticoncepcional oral, não embale o bebê no colo, case antes dos trinta, tenha doutorado antes dos trinta e cinco, faça reiki, adote um pet…

Para uma pessoa ansiosa como eu isso é o inferno. Chegam informações e conselhos de todos os lados. Estranhos dão orientação sem saber as peculiaridades e detalhes de sua vida, sem que eu peça.

Some isto ao fato de, como mulher, ter tantas facetas e responsabilidades, a eterna competição, a luta contra a depressão, os assuntos não resolvidos e palavras não ditas, as mágoas entaladas na garganta, a sensação de impotência e a descrença na atual situação da humanidade, que têm me desgastado sobremaneira.

O sono que raramente vem, os pensamentos sucessivos em forma de listas intermináveis do que fazer, e sinto que nenhum aspecto da vida está normalizado e completo, mesmo eu sabendo que a normalidade e completude são conceitos relativos. Mas isto, definitivamente, não é “falta de deus no coração” ou uma religião para a minha vida. Depois que abandonei as crenças tradicionais tive uma perspectiva diferente da vida, o que me faz mais realista, otimista e pragmática, sem nenhuma chance de voltar atrás.

O mundo nos cobra uma perfeição inalcançável.

Até que um dia, corpo e e mente pedem um tempo, com sinais claros de que se eu não o fizer, terei graves consequências. Inevitavelmente, vem a frustração, em razão das tantas expectativas em torno de mim.

E, como adultos que somos, temos que fazer escolhas, e toda escolha envolve renunciar uma coisa em favor de outra, de modo que sempre implicará em perdas.

É tempo de desacelerar. De refletir. Tempo de reconhecer as dores físicas e não mais mascará-las com analgésico e relaxante muscular. Tempo de meu corpo fazer as pazes com a minha alma. Tempo de reaprender a respirar, de exercitar a paciência e reinventar a resiliência. Tempo de receber e reconhecer que sou merecedora deste cuidado. De determinar que o meu tempo não é igual do outro, assim como minha vida e minhas escolhas.

A vida é um grande oceano e, neste momento, me vejo em plena calmaria, boiando serenamente, mirando o azul do céu e as nuvens. Não quero mais nada, só ouvir minha respiração. Um passo de cada vez. Um dia após o outro.