O inferno são os outros

jean-paul-sartre
A famosa frase de Jean-Paul Sarte define de forma breve algumas reflexões desta tarde de calor infernal.
Somos todos racistas, homofóbicos, transfóbicos, gordofóbicos e misóginos. Estou, sim, inclusa neste rol.
Desde criança, ouço frases como “ele é um negro de alma branca”, “ah, isso é coisa de preto”, “preto quando não caga na entrada, caga na saída”, entre outras. E ríamos disso. A exemplo do Renato Aragão, que certa vez declarou que negros e gays não se ofendiam com piadas racistas e homofóbicas, fomos acostumados a ouvir este tipo de coisa, esboçar um riso amarelo e se sujeitar.
Cresci com a crença de que eu destoava do padrão; as revistas que eu lia, Carícia  e Capricho, lotavam suas páginas com lindas meninas brancas de cabelos lisos. Não permitiram deixar o meu cabelo crescer, com a justificativa de que era “ruim” e que cresceria para cima. Vejo, atualmente, alguns movimentos contra a apropriação cultural, pela liberdade dos crespos e cacheados e outras tantas texturas de cabelo afro. Afinal, usar turbante e uns colares de contas é fácil; sentir na pele a reação e o sentimento de impotência, culminando na baixa auto-estima são outros quinhentos.
Aquele momento descontraído, na pausa do trabalho, quando se contam piadas e todos riem? Dizemos que repudiamos o racismo, somos a favor de cotas afirmativas, queremos o feriado da Consciência Negra, choramos ao assistir “A cor púrpura”, “Doze anos de escravidão” e “A vida secreta das abelhas”, nos revoltamos quando vemos no noticiário um negro sendo injuriado, mas continuamos rindo das piadas prontas, aceitando passivamente a imensa proporção de negros entre a população carcerária, creditando a uma possível coincidência ou “má índole”, ou temerosos, atravessamos a rua ao ver um negro “mal encarado” (a propósito, nunca ouvi o termo “branco mal encarado”). Sim, por mais que eu tenha sangue costa-marfinense, por mais que tenha sofrido na pele e na alma os preconceitos pela minha ascendência, eu sou racista.
Mas não quero falar de racismo, não hoje.
Temos aquele colega de trabalho “alegre demais”, “falante demais”, “escandaloso demais”, que não tem a credibilidade de seus colegas e, muitas vezes, tem que trabalhar o triplo para mostrar que é competente. Aquele colega, com o qual você se recusa a compartilhar o banheiro masculino. Com quem você tem medo de compartilhar um copo, por medo de contrair HIV. Aquela tua amiga, assumidamente lésbica, e o teu pavor de que ela dê em cima de você. O horror mal disfarçado, ao pensar na possibilidade da transmissão de um beijo gay na TV. O que as crianças vão pensar? Isto não é normal! A crença predominante de que todo gay é promíscuo. Mas não, eu não, eu tenho amigos gays!!!  Sorry, o fato de você ter alguns amigos gays não te exime de ser homofóbico. E aquela máxima, não tenho preconceito, MAS… Desta forma, quando rio do colega afeminado, quando matam travestis impunemente e aceito como normal, quando temo ficar perto de minha amiga assumidamente lésbica, quando uso termos pejorativos como “viado”, “biba”, “bicha”, e faço distinção entre os “gays decentes” e os “gays escandalosos”,  também sou homofóbica.
Então, como se já não bastassem os gays, agora existem os transgêneros, que nascem com um corpo que deus lhes deu, e querem mudar a natureza! E, pasmem, alguns fazem a readequação hormonal e cirúrgica, mas se relacionam afetivamente com pessoas do mesmo sexo! Como assim, dissociar sexo, identidade de gênero e orientação sexual? Ah, mas é muita provocação e indecência, aqueles travestis, (travesti e transgênero não são a mesma coisa), na Getúlio Vargas, com aqueles corpos esculturais, se exibindo para os pais de família! Horas mais tarde, o pai de família dá uma passadinha na Ouvidor Pardinho, e  o leva para o motel. Detalhe: o passivo é o pai de família. Admitindo estas “verdades”, de forma passiva, contribuo para a proliferação de preconceitos. Portanto, sou transfóbica.
Com a ditadura da moda, ficamos mais críticos e intolerantes neste quesito. Não admitimos que gordos sejam felizes e estejam em paz consigo mesmos. Pois é, os gordos estão aí, e consomem, viajam, estudam, trabalham e transam! Sim, gordos têm vida sexual ativa, talvez até mais ativa que daquela moça do abdome trincado, do bumbum durinho, que vive de whey protein e suco detox. Como podem, se atrevem a usar calças legging, top cropped e saia balonê! Sem contar na maneira como expõem seus corpos na praia e nos clubes, um atentado aos nossos olhos treinados pela ditadura da magreza. Gordos fazendo cirurgia bariátrica, em programas do Discovery Channel, que para tirá-los de casa, solicitam uma força tarefa de mais de vinte homens! Não passam de preguiçosos, glutões e folgados! Viram aquela moça na rua, com aquele vestido? Não tem espelho em casa, onde já se viu… Moça, teu rosto é tão lindo! Se emagrecesse dez quilos, ficaria tão bonita e saudável! Se você não emagrecer, teu marido vai olhar as mocinhas magras na rua e vai te trocar, viu! É, também sou gordofóbica.
Mulheres sendo vítimas de estupro. O que dizemos? O que ela estava fazendo, naquele lugar, naquela hora, com aquela roupa? Estava pedindo para ser estuprada, né? Quando discute com a mulher em casa, ela detona todos os teus argumentos, o que te resta? Chamar a mulher de louca! Quando, num fórum da internet, meus argumentos são sólidos, basta apelar para que eu me importe se tenho louça na pia pra lavar! Se te dão uma fechada no trânsito, descobre que é uma condutora, bingo! Mulher no volante, perigo constante! Ah, as mulheres querem direitos iguais? Vão fazer alistamento militar obrigatório, trabalhar na construção civil, sustentar uma família (piada, há tempos que existem mulheres que, sozinhas, sustentam suas famílias). Mulher tem a obrigação de estar magra (olha a gordofobia!), linda, maquiada, cabelo hidratado, excelente dona de casa, mãe, profissional, e tudo isso de salto alto! Objetificação da mulher? Mulher como propriedade, enfeite, adorno? Somos quase a maioria da população, mas votamos em homens, que não nos priorizam em suas ações governamentais. Ah, mas o homem é a cabeça do lar! A mulher, o sustentáculo do lar! (Sempre a mulher por baixo…). Quando um homem, casado, tem um caso extraconjugal, e é descoberto, adivinha? A amante, vagabunda, destruidora de lares, vadia! A esposa: desatenta, desleixada, não cuidou do que era seu! E o bonitão safado: o garanhão! Fato emblemático: quando debato com alguém, nas redes sociais, e lhes faltam argumentos, o que lhes resta! Vadia! Vagabunda! Feiosa, ninguém quer te comer! Deve ser sapatão e gorda! Mal amada! Já usei estes mesmo adjetivos torpes e rasteiros para humilhar meus adversários e adversárias. Não me resta, senão, fazer mea culpa, e admitir: sou misógina!
Então, eu sou um poço de preconceitos?
Sim! A cada dia, minha vida tem sido uma tentativa de desconstrução de verdades, que me foram impostas em mais de trinta anos de vida. É como a vida de um dependente químico: um dia de cada vez. Vivo, e viverei, um eterno labor de trabalhar neste ser imperfeito, de exercitar a alteridade. Pensar antes de falar, sobretudo, antes de julgar. Definir quem é o opressor e quem é o oprimido. Ter vez e voz, na minha luta, como mulher negra e feminista, estando ao lado das minorias, não usurpando o protagonismo de suas lutas. O primeiro passo é reconhecer estas arestas, e com cuidado e paciência, repará-las.
Deste modo, retornando a Sarte, “os outros” são aqueles que revelam de nós a nós mesmos, ainda que de forma involuntária. Muitas vezes, com temor de corromper, magoar, ferir. Mas, quando reconheço que a minha incapacidade de compreender e aceitar as fraquezas humanas torna a minha vida num inferno, busco mudar o jogo, rumo a um possível paraíso.
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