O turbante da discórdia

escravaNão me sinto obrigada a me posicionar via Facebook a respeito de cada assunto polêmico que vem à tona. A cada dia que passa, valorizo mais estes momentos em que tenho a capacidade e a serenidade de silenciar.

Sobre a polêmica do turbante, desde a primeira vez que li a respeito, dadas as circunstâncias desse relato, somado ao pragmatismo cada vez mais insistente e algumas lições que tenho aprendido, não tive dúvidas sobre o que concluir. Li e ouvi muitíssimas opiniões. De algumas pessoas, o que já sei, que não me surpreende. De outras, um tanto de decepção.

Tenho percebido que posições ideológicas semelhantes não criam empatia, esta palavra tão abusada, cujo significado está sendo esvaído. Um relativismo, com um quê de sociologia e cientificidade, mas sem um pingo de sensibilidade, e tenho ideia que como travestis e transgêneros têm exigido que sua fala seja legitimada e reconhecida, sobretudo dentro da academia. E não é mera birra de “vivência” ou “lugar de fala”.

O fato, por si só, uma versão unilateral, numa cidade como Curitiba, onde todo mundo tem um smartphone com conexão razoável de internet, que filma tudo e todos sem nenhum pudor, corrobora para que esta seja mais uma fanfic de alguém carente de atenção, nessa modernidade líquida onde tudo se esvai e nada fica. Meu pragmatismo me diz também que uma pessoa acometida por câncer não perde suas características negativas em razão da doença. E que, num situação real de agressão verbal a uma menina careca, em razão de tratamento quimioterápico, sendo exposta de maneira rude, não ficaria impune em face da sociedade altamente interligada, em tempo real, e já fosse intimada, denunciada, julgada e execrada pelo tribunal da santa internet. Não sabemos quem foi a infeliz que repudiou o uso do turbante. Não sabemos exatamente quando, em que região da cidade, ou qual linha de ônibus ocorreu o fato, nem notícia do cobrador e motorista para confirmar.

Dito isto, confesso que toda comoção a favor da moça convalescente, toda manifestação rasa e relativista, todo furor invocado contra “esse povo sectário” me irritou muito, mais que isso, me deixou furiosa.

Até que me deparo com este belo texto do The Intercept_Brasil, diga-se de passagem, um dos portais de notícias mais confiáveis e independentes, para que eu me desmanchasse em lágrimas. Me remete a outro texto que escrevi aqui, o “Consciência Negra”, sobre as minhas experiências e vivências sobre o tema.

Não é um pano colorido, com diversas amarrações, na cabeça de alguém. Não é sobre ser roots, cool ou descolado. É o significado, os ritos, o sagrado. Não é multiculturalidade. É sobre a menina do Camdomblé, com seu turbante, levando pedrada na cabeça e xingada de macumbeira. São terreiros de Umbanda vandalizados e seus praticantes banidos. É o significado, é morada, é dor, é abrigo. É patrimônio e pertencimento, uma das poucas coisas que nos restaram da Diáspora, que nos garante identidade.

Não vou me alongar. De tudo que li e ouvi, ainda que concorde, em certo ponto, com a apropriação cultural pelo viés marxista, este texto me tocou o coração.

Leiam, se quiserem, mas com o coração aberto.

https://theintercept.com/2017/02/15/na-polemica-sobre-turbantes-e-a-branquitude-que-nao-quer-assumir-seu-racismo/

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