Bon appétit!

Meryl Streep é considerada, por muitos, como uma das melhores atrizes de todos os tempos. Os mais pessimistas podem dizer que ela é a pior perdedora do Oscar, já foram 16 indicações em que ela venceu apenas duas vezes. Um dos motivos, são indicações por filmes como esse. Claro que ela faz um trabalho competente como sempre, mas não é uma interpretação tão arrebatadora assim. Talvez a academia fique tão ansiosa pra homenageá-la, que com certeza é a maior atriz viva, que qualquer atuação lhe vale uma indicação. Aqui, ela se junta a Amy Adams, que já acumula 3 indicações sem vitórias.
O  filme que é baseado na vida de duas mulheres. Acompanhamos a vida das duas em época distintas. Julia se muda para Paris para acompanhar o marido que trabalha na embaixada. Cansada de ficar sem fazer nada, ela tenta diversos cursos para aprender alguma coisa, até que vai parar num curso de culinária avançada, a famosa Le Cordon Bleu, em uma sala onde só tem homens. Julie tinha uma carreira promissora, mas acabou tendo que trabalhar em um cubículo atendendo telefonemas o dia inteiro.
O que as une é a culinária francesa e o desejo de compartilhar esse conhecimento com as outras pessoas. Julia, através de um livro. Julie, através de um blog na Internet. O desejo das duas, porém, é bem diferente. Julia quer um livro que seja revolucionário, que mude o mundo, talvez. Julie quer apenas elevar sua abalada auto estimada. Julia leva 8 anos para terminar o livro e tentar publicá-lo, Julie quer pegar todas as 524 receitas do livro e cozinhá-las em um ano.
As duas são, aparentemente, adoráveis, mas depois de um tempo as duas começam a ficar irritantes. Uma com suas obsessões perfeccionistas, e outra que é insegura demais e tem crises pelos motivos mais bobos.
Geralmente os filmes que mostram culinárias, tendem a deixar o espectador com vontade de comer aquelas comidas maravilhosas, ou pelo menos com vontade de conhecer aquela culinária.

Julie tenta estabelecer um paralelo entre sua vida e a de Julia Child, já que a autora de livros de receitas decidira se matricular no Le Cordon Bleu, após se casar e se mudar para Paris, como uma maneira de também fazer algo significativo. Ela tinha 32 anos, não trabalhava e não sabia cozinhar, mas adorava comer. Ela não só acabou fazendo a alegria do esposo, gourmand notável, como também acabou ficando conhecida por seu bom humor no programa de tv “Bon Appétit”, onde buscava desvendar os mistérios da cozinha francesa para os “meros mortais”.

Nessa leitura orgiástica de sabores, sobressai o humor bastante ácido e, inúmeras vezes, azedo de Julie Powell. Ela tenta contar sua experiência sem cair na pieguice, com piadinhas, ironia e uma pitada de auto-depreciação, mas acaba oferecendo um relato deveras inspirador. Algo que afasta o texto do tom “mala conselheira” que ele poderia assumir é que ela xinga muito, resmunga demais, e às vezes é tão, mas tão chata, que sentimos vontade de lhe mandar calar a droga da matraca. Acontece que é esse seu jeito imperfeito que a aproxima de nós. Julie é ansiosa, mimada, histérica e muito desorganizada. Tem de administrar o projeto morando numa espelunca decadente, tendo de pegar o metrô, cozinhando até tarde e cuidando de seu gato. É possível se identificar com ela porque, enquanto tenta fazer algo importante com um mínimo de seriedade e comprometimento, ela enfrenta inúmeras dificuldades: a imundície do apartamento, a bizarrice de certas receitas. É claro que ela surta, inúmeras vezes, ao longo do processo, mas o apoio dos amigos, parentes e leitores ajuda-a a seguir em frente e levar o projeto até o fim.

Concluída a meta, Julie alcançou notoriedade, reconhecimento e o contrato para publicar o livro. Mais que isso, ela ganhou força e recobrou a autoestima. Seu relato não é exatamente leve, tem momentos divertidos e dramáticos, e até mesmo algumas reflexões inteligentes. Por isso, aproveitando-me novamente do jargão culinário, posso dizer que o livro se apresenta em camadas, como um bolo com diferentes recheios. Desafia o nosso paladar, mas com algo ainda de familiar e aconchegante.

Ground control to Major Tom ♪♫

Hoje tive a grata oportunidade de rever um dos meus filmes preferidos: A vida secreta de Walter Mitty. Benn Stiller, que protagoniza e dirige a película, conhecido por seus papéis cômicos, me surpreende nesta bela interpretação. Infelizmente, a crítica não foi benevolente com o filme, e como eu sempre nado contra a corrente, amo a história, e me identifico com ela.

Walter Mitty (Ben Stiller) é um gestor do setor de negativos na revista Life, que frequentemente tem devaneios de aventuras fantásticas, e tem uma queda por sua colega Cheryl (Kristen Wiig). O fotojornalista Sean O’Connell (Sean Penn), que trabalha em estreita colaboração com Mitty, lhe enviou um pacote contendo seus últimos negativos e uma carteira como um presente, pela apreciação de seu excelente trabalho. O pacote contém uma fotografia especial, o negativo 25, que ele diz, por escrito, ter capturado a “Quintessência” da Life, e que esta deve ser usada para a capa da edição final da revista, que se converterá versão online. Infelizmente, esse negativo específico está faltando no pacote, e Mitty é forçado a dar satisfações para o gerente corporativo de transição, o detestável Ted Hendricks (Adam Scott), sobre o status do processamento da imagem. Usando os outros negativos como pistas, Mitty descobre que O’Connell está na Groenlândia e voa até lá para tentar encontrá-lo.

Chegando na Groenlândia, Mitty vai a um bar perguntando sobre O’Connell. O barman explica que O’Connell já se foi em um navio , e para encontrá-lo, Mitty precisa ir no helicóptero postal, e o piloto está bêbado cantando uma versão karaokê de “Don´t You Want Me” no bar. Mitty se recusa a voar com um piloto bêbado, mas imagina Cheryl cantando para ele “Space Oddity”, ganha uma nova confiança, e pula a bordo do helicóptero. Chegando ao navio, Mitty percebe que o helicóptero não pode pousar no navio. Mitty entende que deve que saltar para o navio, em seguida, mergulhando em águas geladas, infestadas de tubarões, antes que ele possa ser trazido a bordo. Ao fazê-lo, Mitty percebe toda essa aventura realmente está acontecendo, ao contrário de seus devaneios. Os marinheiros lembram de O’Connell, e ainda oferecem o bolo a Mitty, o mesmo que sua mãe costuma fazer, e descobre mais uma pista no papel de embrulho. Sua jornada continua na Islândia, onde O’Connell foi para fotografar o vulcão Eyjaflallajökull. Uma erupção impede Mitty de encontrar O’Connell, e ele é forçado a interromper a busca depois de receber uma mensagem de texto dizendo-lhe para voltar para Nova York imediatamente.

Por seu fracasso, Mitty é demitido, e se desanima ao descobrir que Cheryl, aparentemente, se reconciliou com seu ex-marido. Mitty volta para casa, completamente desanimado, e joga fora a carteira quando ele visita sua mãe (Shirley MacLaine) e para sua surpresa, ela menciona ter encontrado O’Connell. Ela havia dito antes, mas ao mesmo tempo sonhando ele não conseguiu ouvi-la. Em seguida, ele encontra uma nova pista para continuar a caçar O’Connell. Mitty  rastreia O’Connell no Himalaia, tentando fotografar um raro leopardo-das-neves, e pergunta sobre o negativo faltando. O’Connell explica que a mensagem sobre a tomada de um olhar mais atento era literal: o negativo estava na carteira. Mitty se junta a ele em um jogo de futebol com alguns moradores. Ele voa para Los Angeles, mas é preso pela segurança do aeroporto, e chama a única pessoa que ele conhece em Los Angeles; Todd Maher (Patton Oswald), um representante da e-Harmony, que manteve em contato através de suas aventuras.

Mitty retorna para casa e ajuda a sua mãe a vender seu piano,  e menciona que não tem mais uma carteira. Sua mãe diz que ela sempre mantém suas recordações, e devolve a carteira que ele havia jogado fora. Sem olhar para o negativo, Mitty o entrega na sede da revista Life, dizendo que esta era a fotografia que Sean O’Connell queria para a edição final, e repreende Hendricks por desrespeitar a equipe que fez a revista tão honrada.

A Quintessência, a foto da última capa da Life se revela, nas bancas, surpreendendo muito o protagonista.

Mitty, em sua infância e adolescência, teria tudo para ser aventureiro e destemido. Era muito incentivado pelo pai, que lhe cortou o cabelo moicano, e lhe deu o que seria o seu diário de viagem. Com o falecimento do pai, ele teve que cortar o cabelo, e começar a trabalhar numa pizzaria. Não teve as aventuras e grandes viagens de mochileiro que desejava, tendo trabalhado por dezesseis anos na Life, sem muitas surpresas em sua vida.

Foi através deste filme que descobri a banda islandesa Of Monster and Men, pela qual fiquei apaixonada, com a canção Dirty Paws. Outra música marcante, citada e interpretada pela personagem Cheryl, foi Space Oddity, de David Bowie. Ao final, nos créditos, somos presenteados com várias imagens do filme, com a cena final da aurora boreal, ao som da ótima Stay Alive, de José González.

Embora não tenha se tornado um blockbuster, sendo desprezado pela crítica, creio ser um excelente filme, que vale muito a pena ser visto.

Run, Forrest, run!

Lembro-me do dia em que, lá pelos idos de 1997, peguei na locadora a fita VHS do filme Forrest Gump (acho o subtítulo “o contador de histórias” ridículo). Não tínhamos vídeo-cassete, e fomos passar o fim de semana no meu tio, que tinha o aparelho.

A cópia era legendada. Tudo me fez ficar apaixonada pela película: a interpretação impecável de Tom Hanks, Sally Field e Gary Sinise, a fotografia, a trilha sonora perfeita…

A cena mais linda, para mim, é quando o pequeno Forrest, fugindo de seus perseguidores, com seus aparelhos ortopédicos, os destrói, correndo para nunca mais parar.

Aquele menino do Alabama passa pelos acontecimentos mais importantes de sua vida, em coincidência com os grandes acontecimentos mundiais daquele período.

A sua relação amorosa com a mãe, o amor precoce por Jenny, a amizade por Bubba, a relação de conflito e mútuo respeito com o Tenente Dan. Apesar de ser ficção, vi muito sobre mim em Forrest: minha dificuldade em perceber ironias; minha insistência em “correr e correr”, nunca me permitindo estar estagnada; meu costume de tentar ver o melhor de cada situação, e meu costume de, quase sempre, evitar conflitos mas, se inevitável for, lutar com todas as minhas forças, até as últimas consequências.

Creio que, neste momento, comecei a me apaixonar pelo cinema. Não posso dizer ser uma cinéfila. Tenho um gosto bem diversificado, mas tenho apreço por filmes históricos, baseados em fatos reais, musicais e aqueles filmes bem melosos. Amo Stanley Kubrick e Clint Eastwood, Tom Hanks, Meryl Streep e Julianne Moore. Tenho um certo receio de filmes de terror e suspense, e evito, sempre que posso. Até hoje não me recuperei pelo filme Enterrado Vivo, com o Ryan Reynolds. Como tenho filhos, não perco animações, e creio que, mesmo eles crescendo, não deixarei de ver filmes deste gênero.

O cinema, seja na sala de reproduções, seja na TV da minha sala ou quarto, sozinha, na companhia de meu marido, filhos ou amigos, com pipoca, batata frita ou nuggets, sempre será precedido por aquela sensação de apreensão, frio na barriga, e muitas emoções. E creio que este despertar de emoções e sensações me fazem ter tanto prazer pela sétima arte.