Semana Internacional da Mulher

Por aquelas que sofrem agressões físicas, morais, sexuais e psicológicas, e são culpabilizadas por algo de quais são as vítimas.
Por aquelas que são assediadas desde a tenra infância, e desde cedo julgadas pelo que vestem e por onde andam.
Por aquelas que têm dupla ou tripla jornada, pois a cultura determina seu papel bem demarcado, sobre o qual se joga a culpa se algo der errado, como na educação dos filhos.
Por aquelas que têm sua educação, formação e sonho profissional negligenciados, sob a desculpa de que mulher deve ficar em casa, cuidando da família.
Por aquelas que engravidam, de modo planejado, acidentalmente ou inesperadamente, têm seus filhos sob a ode “pró-vida”, mas se encarregam sozinhas da criação, educação, alimentação e outras preocupações que dinheiro nenhum no mundo cobre, cujos machos reprodutores ignoram, abandonando covardemente seus filhos. Por aquelas que, sem estrutura alguma, decidem por interromper a gestação, por seu destino fadado à miséria, e é sangrada viva, vindo a óbito na clandestinidade, enquanto outras mais afortunadas, cristãs e bem educadas resolvem “o problema” em clínicas assépticas e com antibioticoterapia adequada.
Por aquelas que são preteridas nas organizações, por mais competentes e qualificadas que sejam, recebem remuneração inferior ao que o homem na mesma função, pois podem engravidar, ter TPM, serem “emotivas demais”.
Por aquelas que amam outras mulheres, que são discriminadas, humilhadas e fetichizadas. Por aquelas, cujo corpo biológico não corresponde à identidade de gênero, sendo-lhes negados direitos, personalidade, humanidade, saúde, educação, profissionalização ou até mesmo a vida, que muitas vezes não têm outra saída senão a prostituição.
Por aquelas que estão encarceradas, cumprindo a pena imposta pelo Estado, que sequer recebem visitas dos companheiros e familiares, se gestantes, têm de parir algemadas e se separar de seus filhos muito precocemente.
Por aquelas que no momento mais importante da maternidade, o parto, têm sua intimidade, vontade e dignidade violados por profissionais que deveriam zelar por este momento tão especial na vida de uma mãe.
Por aquelas que, na academia, são subestimadas e diminuídas por seus pares masculinos, apesar das grandes mulheres que contribuíram e contribuem hoje para a ciência.
Por aquelas que, dentro dos movimentos sociais, são silenciadas pelos próprios “companheiros de luta”.
Ser mulher não é resignação, perseverança, submissão, subserviência, delicadeza, suavidade, maquiagem e salto alto.
Ser mulher é se reconhecer como tal, ter seus direitos garantidos, suas escolhas chanceladas, sua potencialidade estimulada e seu valor reconhecido.
É para estas que dedico este dia, que não é celebração. Este dia é um lembrete de que eu não serei livre enquanto outra mulher estiver cativa, ainda que nossas algemas sejam diferentes.

mulher

O turbante da discórdia

escravaNão me sinto obrigada a me posicionar via Facebook a respeito de cada assunto polêmico que vem à tona. A cada dia que passa, valorizo mais estes momentos em que tenho a capacidade e a serenidade de silenciar.

Sobre a polêmica do turbante, desde a primeira vez que li a respeito, dadas as circunstâncias desse relato, somado ao pragmatismo cada vez mais insistente e algumas lições que tenho aprendido, não tive dúvidas sobre o que concluir. Li e ouvi muitíssimas opiniões. De algumas pessoas, o que já sei, que não me surpreende. De outras, um tanto de decepção.

Tenho percebido que posições ideológicas semelhantes não criam empatia, esta palavra tão abusada, cujo significado está sendo esvaído. Um relativismo, com um quê de sociologia e cientificidade, mas sem um pingo de sensibilidade, e tenho ideia que como travestis e transgêneros têm exigido que sua fala seja legitimada e reconhecida, sobretudo dentro da academia. E não é mera birra de “vivência” ou “lugar de fala”.

O fato, por si só, uma versão unilateral, numa cidade como Curitiba, onde todo mundo tem um smartphone com conexão razoável de internet, que filma tudo e todos sem nenhum pudor, corrobora para que esta seja mais uma fanfic de alguém carente de atenção, nessa modernidade líquida onde tudo se esvai e nada fica. Meu pragmatismo me diz também que uma pessoa acometida por câncer não perde suas características negativas em razão da doença. E que, num situação real de agressão verbal a uma menina careca, em razão de tratamento quimioterápico, sendo exposta de maneira rude, não ficaria impune em face da sociedade altamente interligada, em tempo real, e já fosse intimada, denunciada, julgada e execrada pelo tribunal da santa internet. Não sabemos quem foi a infeliz que repudiou o uso do turbante. Não sabemos exatamente quando, em que região da cidade, ou qual linha de ônibus ocorreu o fato, nem notícia do cobrador e motorista para confirmar.

Dito isto, confesso que toda comoção a favor da moça convalescente, toda manifestação rasa e relativista, todo furor invocado contra “esse povo sectário” me irritou muito, mais que isso, me deixou furiosa.

Até que me deparo com este belo texto do The Intercept_Brasil, diga-se de passagem, um dos portais de notícias mais confiáveis e independentes, para que eu me desmanchasse em lágrimas. Me remete a outro texto que escrevi aqui, o “Consciência Negra”, sobre as minhas experiências e vivências sobre o tema.

Não é um pano colorido, com diversas amarrações, na cabeça de alguém. Não é sobre ser roots, cool ou descolado. É o significado, os ritos, o sagrado. Não é multiculturalidade. É sobre a menina do Camdomblé, com seu turbante, levando pedrada na cabeça e xingada de macumbeira. São terreiros de Umbanda vandalizados e seus praticantes banidos. É o significado, é morada, é dor, é abrigo. É patrimônio e pertencimento, uma das poucas coisas que nos restaram da Diáspora, que nos garante identidade.

Não vou me alongar. De tudo que li e ouvi, ainda que concorde, em certo ponto, com a apropriação cultural pelo viés marxista, este texto me tocou o coração.

Leiam, se quiserem, mas com o coração aberto.

https://theintercept.com/2017/02/15/na-polemica-sobre-turbantes-e-a-branquitude-que-nao-quer-assumir-seu-racismo/

O inferno são os outros

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A famosa frase de Jean-Paul Sarte define de forma breve algumas reflexões desta tarde de calor infernal.
Somos todos racistas, homofóbicos, transfóbicos, gordofóbicos e misóginos. Estou, sim, inclusa neste rol.
Desde criança, ouço frases como “ele é um negro de alma branca”, “ah, isso é coisa de preto”, “preto quando não caga na entrada, caga na saída”, entre outras. E ríamos disso. A exemplo do Renato Aragão, que certa vez declarou que negros e gays não se ofendiam com piadas racistas e homofóbicas, fomos acostumados a ouvir este tipo de coisa, esboçar um riso amarelo e se sujeitar.
Cresci com a crença de que eu destoava do padrão; as revistas que eu lia, Carícia  e Capricho, lotavam suas páginas com lindas meninas brancas de cabelos lisos. Não permitiram deixar o meu cabelo crescer, com a justificativa de que era “ruim” e que cresceria para cima. Vejo, atualmente, alguns movimentos contra a apropriação cultural, pela liberdade dos crespos e cacheados e outras tantas texturas de cabelo afro. Afinal, usar turbante e uns colares de contas é fácil; sentir na pele a reação e o sentimento de impotência, culminando na baixa auto-estima são outros quinhentos.
Aquele momento descontraído, na pausa do trabalho, quando se contam piadas e todos riem? Dizemos que repudiamos o racismo, somos a favor de cotas afirmativas, queremos o feriado da Consciência Negra, choramos ao assistir “A cor púrpura”, “Doze anos de escravidão” e “A vida secreta das abelhas”, nos revoltamos quando vemos no noticiário um negro sendo injuriado, mas continuamos rindo das piadas prontas, aceitando passivamente a imensa proporção de negros entre a população carcerária, creditando a uma possível coincidência ou “má índole”, ou temerosos, atravessamos a rua ao ver um negro “mal encarado” (a propósito, nunca ouvi o termo “branco mal encarado”). Sim, por mais que eu tenha sangue costa-marfinense, por mais que tenha sofrido na pele e na alma os preconceitos pela minha ascendência, eu sou racista.
Mas não quero falar de racismo, não hoje.
Temos aquele colega de trabalho “alegre demais”, “falante demais”, “escandaloso demais”, que não tem a credibilidade de seus colegas e, muitas vezes, tem que trabalhar o triplo para mostrar que é competente. Aquele colega, com o qual você se recusa a compartilhar o banheiro masculino. Com quem você tem medo de compartilhar um copo, por medo de contrair HIV. Aquela tua amiga, assumidamente lésbica, e o teu pavor de que ela dê em cima de você. O horror mal disfarçado, ao pensar na possibilidade da transmissão de um beijo gay na TV. O que as crianças vão pensar? Isto não é normal! A crença predominante de que todo gay é promíscuo. Mas não, eu não, eu tenho amigos gays!!!  Sorry, o fato de você ter alguns amigos gays não te exime de ser homofóbico. E aquela máxima, não tenho preconceito, MAS… Desta forma, quando rio do colega afeminado, quando matam travestis impunemente e aceito como normal, quando temo ficar perto de minha amiga assumidamente lésbica, quando uso termos pejorativos como “viado”, “biba”, “bicha”, e faço distinção entre os “gays decentes” e os “gays escandalosos”,  também sou homofóbica.
Então, como se já não bastassem os gays, agora existem os transgêneros, que nascem com um corpo que deus lhes deu, e querem mudar a natureza! E, pasmem, alguns fazem a readequação hormonal e cirúrgica, mas se relacionam afetivamente com pessoas do mesmo sexo! Como assim, dissociar sexo, identidade de gênero e orientação sexual? Ah, mas é muita provocação e indecência, aqueles travestis, (travesti e transgênero não são a mesma coisa), na Getúlio Vargas, com aqueles corpos esculturais, se exibindo para os pais de família! Horas mais tarde, o pai de família dá uma passadinha na Ouvidor Pardinho, e  o leva para o motel. Detalhe: o passivo é o pai de família. Admitindo estas “verdades”, de forma passiva, contribuo para a proliferação de preconceitos. Portanto, sou transfóbica.
Com a ditadura da moda, ficamos mais críticos e intolerantes neste quesito. Não admitimos que gordos sejam felizes e estejam em paz consigo mesmos. Pois é, os gordos estão aí, e consomem, viajam, estudam, trabalham e transam! Sim, gordos têm vida sexual ativa, talvez até mais ativa que daquela moça do abdome trincado, do bumbum durinho, que vive de whey protein e suco detox. Como podem, se atrevem a usar calças legging, top cropped e saia balonê! Sem contar na maneira como expõem seus corpos na praia e nos clubes, um atentado aos nossos olhos treinados pela ditadura da magreza. Gordos fazendo cirurgia bariátrica, em programas do Discovery Channel, que para tirá-los de casa, solicitam uma força tarefa de mais de vinte homens! Não passam de preguiçosos, glutões e folgados! Viram aquela moça na rua, com aquele vestido? Não tem espelho em casa, onde já se viu… Moça, teu rosto é tão lindo! Se emagrecesse dez quilos, ficaria tão bonita e saudável! Se você não emagrecer, teu marido vai olhar as mocinhas magras na rua e vai te trocar, viu! É, também sou gordofóbica.
Mulheres sendo vítimas de estupro. O que dizemos? O que ela estava fazendo, naquele lugar, naquela hora, com aquela roupa? Estava pedindo para ser estuprada, né? Quando discute com a mulher em casa, ela detona todos os teus argumentos, o que te resta? Chamar a mulher de louca! Quando, num fórum da internet, meus argumentos são sólidos, basta apelar para que eu me importe se tenho louça na pia pra lavar! Se te dão uma fechada no trânsito, descobre que é uma condutora, bingo! Mulher no volante, perigo constante! Ah, as mulheres querem direitos iguais? Vão fazer alistamento militar obrigatório, trabalhar na construção civil, sustentar uma família (piada, há tempos que existem mulheres que, sozinhas, sustentam suas famílias). Mulher tem a obrigação de estar magra (olha a gordofobia!), linda, maquiada, cabelo hidratado, excelente dona de casa, mãe, profissional, e tudo isso de salto alto! Objetificação da mulher? Mulher como propriedade, enfeite, adorno? Somos quase a maioria da população, mas votamos em homens, que não nos priorizam em suas ações governamentais. Ah, mas o homem é a cabeça do lar! A mulher, o sustentáculo do lar! (Sempre a mulher por baixo…). Quando um homem, casado, tem um caso extraconjugal, e é descoberto, adivinha? A amante, vagabunda, destruidora de lares, vadia! A esposa: desatenta, desleixada, não cuidou do que era seu! E o bonitão safado: o garanhão! Fato emblemático: quando debato com alguém, nas redes sociais, e lhes faltam argumentos, o que lhes resta! Vadia! Vagabunda! Feiosa, ninguém quer te comer! Deve ser sapatão e gorda! Mal amada! Já usei estes mesmo adjetivos torpes e rasteiros para humilhar meus adversários e adversárias. Não me resta, senão, fazer mea culpa, e admitir: sou misógina!
Então, eu sou um poço de preconceitos?
Sim! A cada dia, minha vida tem sido uma tentativa de desconstrução de verdades, que me foram impostas em mais de trinta anos de vida. É como a vida de um dependente químico: um dia de cada vez. Vivo, e viverei, um eterno labor de trabalhar neste ser imperfeito, de exercitar a alteridade. Pensar antes de falar, sobretudo, antes de julgar. Definir quem é o opressor e quem é o oprimido. Ter vez e voz, na minha luta, como mulher negra e feminista, estando ao lado das minorias, não usurpando o protagonismo de suas lutas. O primeiro passo é reconhecer estas arestas, e com cuidado e paciência, repará-las.
Deste modo, retornando a Sarte, “os outros” são aqueles que revelam de nós a nós mesmos, ainda que de forma involuntária. Muitas vezes, com temor de corromper, magoar, ferir. Mas, quando reconheço que a minha incapacidade de compreender e aceitar as fraquezas humanas torna a minha vida num inferno, busco mudar o jogo, rumo a um possível paraíso.

Na trilha

A vida é, para mim, uma oportunidade única de vivenciar grandes experiências e ter grandes lições. Independente da variedade de crenças, que preceituam outras vidas e vida após a morte, penso que nossa presença e passagem por este planeta se constitui na diferença que se opera na vida das pessoas e do ambiente onde se vive. Nossa existência, ainda que insignificante diante de toda a vastidão do cosmo, tem efeitos imensuráveis  sobre nosso planeta, sendo inconcebível o descaso para com a natureza, em que pese ao que deixaremos de legado para os nossos descendentes.

Pude refletir acerca do assunto, e outros tantos, ao fazer a Trilha de Naufragados, em Florianópolis, no lado sul da ilha. Tal trilha, considerada leve para os entendidos no assunto, possui aproximadamente 2,6 km de extensão, com pequenos riachos de água límpida, com uma subida no início, e um declive na segunda metade. A paisagem é de tirar o fôlego: mata preservada, com degraus e drenagem, já que é um lugar de alta umidade.

Ao final desta trilha, somos presenteados com uma vista inesquecível de uma linda praia de areias brancas e águas transparentes, com poucas casas que constituem a vida de famílias de pescadores, onde a energia elétrica não chega.

Seguindo para o lado direito, depois do pequeno rio que ali desemboca, tem início à trilha que leva à casa do Exército (construção feita pelos militares), desabitada e parcialmente destruída e, posteriormente, aos canhões e ao farol. Ao chegar no topo, nos deparamos com uma vista magnífica do mar, da praia de Naufragados, praia do Sonho, Pinheira e Guarda do Embaú.

Apesar de ser considerada leve, eu tive algumas dificuldades. Pude sentir os efeitos drásticos do sedentarismo, sobretudo na primeira subida. Tinha em mente o que iria enfrentar, mas nem sonhava o efeito que esta trilha surtiria neste corpo sedentário e nesta mente ansiosa. Entendi uma fração ínfima do que alguns trilheiros que fizeram o caminho de Santiago de Compostela relatam. Alguns o relatam como um grande divisor de águas em sua vida.

Reitero que esta pequena trilha é incomparável a Santiago de Compostela, até mesmo risível tal comparação, mas o impacto que teve na minha vida foi grandioso.

Levei para a trilha o sedentarismo, um corpo dolorido fisicamente pelas dores emocionais, minhas mágoas, ressentimentos, minha procrastinação. Levei os sapos engolidos, os efeitos da baixa auto estima, as revoltas interiores e a incompreensão . Levei os assuntos  mal resolvidos, a culpa, a introspecção, os efeitos danosos da ansiedade e a uma interpretação equivocada acerca de alguns assuntos.

No decorrer da trilha ganhei amigos. Recebi atenção, cuidado e compreensão. Percebi um novo significado para a superação, resiliência, contemplação e silêncio. Estive atenta à minha respiração dispneica e à falta de firmeza nos tornozelos. Fui amparada durante os episódios de tontura, que não era somente pelo esforço da trilha, mas por todas as emoções que culminaram neste evento. Tive consciência de uma dimensão desconhecida do significado de compartilhar.

Deixei na trilha todas as minhas  incompreensões e apegos inúteis. A trilha, um grande presente dado pela mãe natureza, em sua grande perfeição, recebeu minhas angústias. A troca se deu mutuamente: ela recebe estas energias estafantes de uma vida fútil, egoísta e materialista, e eu preservo e zelo por estes bens milenares, onde estou apenas de passagem.

Levo da trilha, na bagagem da vida, um fardo mais leve. A capacidade de silenciar e escutar os meus sons. Levo novas perspectivas e a aceitação do meu ritmo, que não deve ter nenhum parâmetro senão o que eu decidir ser melhor para mim. Levo a gratidão por este vasto mundo, por ainda existir amor  e o reconhecimento desta fortuna que poucos se dão conta que possuem. Levo o olhar adiante, com a factível possibilidade de erro, e a certeza de que, quando ele ocorrer, tenho que levantar a cabeça e seguir em frente. Levo meus sonhos, o amor pelos meus iguais, o instinto de sobrevivência revigorado e a preservação constante de minha sanidade. Levo comigo a resistência e mil motivos para continuar, mil trilhas para andejar e muitas razões para agradecer.

Just breathe

Vivemos num mundo caótico. Excesso de informação, dicas, orientações, life coach, life style…

Durma por oito horas, faça exercícios físicos, faça cross training, beba suco detox, não consuma glúten, dialogue com os filhos, transe três vezes na semana, se locomova de bicicleta, salve as baleias, tome chá verde, veja documentários, não use shampoo com sulfatos, escove os dentes com açafrão, não use anticoncepcional oral, não embale o bebê no colo, case antes dos trinta, tenha doutorado antes dos trinta e cinco, faça reiki, adote um pet…

Para uma pessoa ansiosa como eu isso é o inferno. Chegam informações e conselhos de todos os lados. Estranhos dão orientação sem saber as peculiaridades e detalhes de sua vida, sem que eu peça.

Some isto ao fato de, como mulher, ter tantas facetas e responsabilidades, a eterna competição, a luta contra a depressão, os assuntos não resolvidos e palavras não ditas, as mágoas entaladas na garganta, a sensação de impotência e a descrença na atual situação da humanidade, que têm me desgastado sobremaneira.

O sono que raramente vem, os pensamentos sucessivos em forma de listas intermináveis do que fazer, e sinto que nenhum aspecto da vida está normalizado e completo, mesmo eu sabendo que a normalidade e completude são conceitos relativos. Mas isto, definitivamente, não é “falta de deus no coração” ou uma religião para a minha vida. Depois que abandonei as crenças tradicionais tive uma perspectiva diferente da vida, o que me faz mais realista, otimista e pragmática, sem nenhuma chance de voltar atrás.

O mundo nos cobra uma perfeição inalcançável.

Até que um dia, corpo e e mente pedem um tempo, com sinais claros de que se eu não o fizer, terei graves consequências. Inevitavelmente, vem a frustração, em razão das tantas expectativas em torno de mim.

E, como adultos que somos, temos que fazer escolhas, e toda escolha envolve renunciar uma coisa em favor de outra, de modo que sempre implicará em perdas.

É tempo de desacelerar. De refletir. Tempo de reconhecer as dores físicas e não mais mascará-las com analgésico e relaxante muscular. Tempo de meu corpo fazer as pazes com a minha alma. Tempo de reaprender a respirar, de exercitar a paciência e reinventar a resiliência. Tempo de receber e reconhecer que sou merecedora deste cuidado. De determinar que o meu tempo não é igual do outro, assim como minha vida e minhas escolhas.

A vida é um grande oceano e, neste momento, me vejo em plena calmaria, boiando serenamente, mirando o azul do céu e as nuvens. Não quero mais nada, só ouvir minha respiração. Um passo de cada vez. Um dia após o outro.

La música y el dolor del pueblo

Puedo decir que conocí la música de América Latina en 1995. Mi querida tía me mostró una K7 de un grupo folclórico llamado Viento Sur, originarios de Bolivia, que fue establecido en Curitiba desde hace varios años.
Oyó “El condor pasa”, “Soy piedra y raíz”, “La Batea” y “Todo Cambia”.
Me interesé, años más tarde, el tema, sobre todo después de saber lo mucho que mi padre le gustaba la gran cantante argentina Mercedes Sosa.
La historia de la música de América Latina está marcada por grandes acontecimientos sociales, políticos y culturales, y algunos períodos oscuros, como el tiempo de los regímenes dictatoriales. La música era una arma de protesta, muy bien utilizada en las manos de los grandes nombres en Chile, Violeta Parra, Quilapayún, Inti Illimani y Víctor Jara. En Argentina, la espectacular Mercedes Sosa, y en Brasil, Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gal Costa y Maria Bethânia.
Eran tiempos crueles, donde masacraron a muchas vidas y muchas voces fueron silenciadas. Sus resultados nocivos continúan hasta hoy, cuyos efectos son irreparables.
En este período de agitación política en nuestro país se aferran a tantas voces que cantan la libertad soñada, lejos del amado país, la crueldad de sus verdugos, con la esperanza recordamos que nuestra democracia tan reciente se logró a costa de la sangre de los inocentes .
Me aferro a la historia, su veracidad, y el pragmatismo de los lúcidos sobre los graves riesgos que assobram los logros obtenidos tantos sacrificios. Me duele profundamente que podemos pasar por el mismo dolor cantado en muchas voces y instrumentos en América Latina, por lo que este ensangrentada y vilipendiada desde la colonización. En mis pocas y sencillas, pero sentidas palabras, lloro en mi corazón por la fuerza de la gente, por la libertad, garantía de los derechos y el mantenimiento de el  orden democrático. ¡Fuerza, Brasil! ¡Fuerza, América Latina!

Dia internacional da Mulher

Por aquelas que sofrem agressões físicas, morais, sexuais e psicológicas, e são culpabilizadas por algo de quais são as vítimas.

Por aquelas que são assediadas desde a tenra infância, e desde cedo julgadas pelo que vestem e por onde andam.
Por aquelas que têm dupla ou tripla jornada, pois a cultura determina seu papel bem demarcado, sobre o qual se joga a culpa se algo der errado, como na educação dos filhos.
Por aquelas que têm sua educação, formação e sonho profissional negligenciados, sob a desculpa de que mulher deve ficar em casa, cuidando da família.
Por aquelas que engravidam, de modo planejado, acidentalmente ou inesperadamente, têm seus filhos sob a ode “pró-vida”, mas se encarregam sozinhas da criação, educação, alimentação e outras preocupações que dinheiro nenhum no mundo cobre, cujos machos reprodutores ignoram, abandonando covardemente seus filhos. Por aquelas que, sem estrutura alguma, decidem por interromper a gestação, por seu destino fadado à miséria, e é sangrada viva, vindo a óbito na clandestinidade, enquanto outras mais afortunadas, cristãs e bem educadas resolvem “o problema” em clínicas assépticas e com antibioticoterapia adequada.
Por aquelas que são preteridas nas organizações, por mais competentes e qualificadas que sejam, recebem remuneração inferior ao que o homem na mesma função, pois podem engravidar, ter TPM, serem “emotivas demais”.
Por aquelas que amam outras mulheres, que são discriminadas, humilhadas e fetichizadas. Por aquelas, cujo corpo biológico não corresponde à identidade de gênero, sendo-lhes negados direitos, personalidade, humanidade, saúde, educação, profissionalização ou até mesmo a vida, que muitas vezes não têm outra saída senão a prostituição.
Por aquelas que estão encarceradas, cumprindo a pena imposta pelo Estado, que sequer recebem visitas dos companheiros e familiares, se gestantes, têm de parir algemadas e se separar de seus filhos muito precocemente.
Por aquelas que no momento mais importante da maternidade, o parto, têm sua intimidade, vontade e dignidade violados por profissionais que deveriam zelar por este momento tão especial na vida de uma mãe.
Por aquelas que, na academia, são subestimadas e diminuídas por seus pares masculinos, apesar das grandes mulheres que contribuíram e contribuem hoje para a ciência.
Por aquelas que, dentro dos movimentos sociais, são silenciadas pelos próprios “companheiros de luta”.
Ser mulher não é resignação, perseverança, submissão, subserviência, delicadeza, suavidade, maquiagem e salto alto.
Ser mulher é se reconhecer como tal, ter seus direitos garantidos, suas escolhas chanceladas, sua potencialidade estimulada e seu valor reconhecido.
É para estas que dedico este dia, que não é celebração. Este dia é um lembrete de que eu não serei livre enquanto outra mulher estiver cativa, ainda que nossas algemas sejam diferentes.

O dilema da amamentação

(Texto publicado em colaboração com o blog feminista Não me Kahlo)

A maioria da população está ciente sobre a orientação do Ministério da Saúde, Sociedade Brasileira de Pediatria e Organização Mundial da Saúde sobre os benefícios da amamentação, tanto para a mãe quanto para o bebê. No entanto, mulheres são bombardeadas com orientações de alguns pediatras e propagandas de grandes companhias, com anúncios milionários ressaltando a qualidade e segurança das fórmulas e suplementos alimentares para crianças.

Fugindo do aspecto capitalista das grandes indústrias alimentícias na busca incessante pelo lucro, hoje prefiro focar em um dos sujeitos do processo da amamentação: a mulher.

 A romantização da maternidade e seus efeitos sobre os ideais da mãe perfeita recaem sobre a mulher, lhe infringindo a abnegação e sujeição às imposições sociais, tornando o seu papel coadjuvante, e não protagonista deste processo. A mãe, que deseja muito amamentar o seu filho, é ignorada, e padece em seu inferno pessoal.

 A mulher que, por algum motivo, deixa de amamentar o bebê, é demonizada, sem que tenha algum auxílio ou orientação, recebendo a alcunha de egoísta, preguiçosa ou relapsa. Onde já se viu, uma mulher deixar de seguir a natureza de amamentar a sua cria? Aquelas que ousam amamentar, igualmente são recriminadas por amamentar em público, como o caso de uma mulher que foi assassinada por uma paramilitar simpatizante do ISIS na Síria, por cometer ato indecente e mostrar suas mamas em público.

 Muitas mulheres, no início da amamentação, adquirem fissuras mamárias, que são extremamente dolorosas. Sem a orientação correta, além da dor excruciante, estas fissuras podem evoluir para uma mastite, que é uma infecção grave nas mamas. Como se não bastasse a dor, a culpa lhe assalta ante à possibilidade de deixar o bebê com fome, pois têm a consciência que, naquele instante, ele depende única e exclusivamente dela. Neste período, mãe, sogra, tia, madrinha, vizinha e cunhada surgem, e na ânsia de ajudar, tornam esta tarefa aparentemente simples numa Via Crucis, impondo e reforçando a obrigação feminina de amamentar.

 Muitas mulheres, ao fazerem seu pré-natal na rede de saúde suplementar, não têm seus anseios e dúvidas atendidos pelo profissional médico. Passado o parto e o puerpério imediato, pula-se para as consultas pediátricas periódicas, que têm como foco o bebê, e se este não puder ser amamentado, não importando o nível de dificuldade, imediatamente e sem objeção, é recomendado o aleitamento artificial, com fórmulas caras, muitas vezes fora da realidade econômica da mulher brasileira. Este processo doloroso representa um fracasso para a mulher, que se julga incapaz de alimentar seu filho, fazendo-a padecer, sozinha e silenciosamente.

 Esta falha grave poderia ser evitada se, no pré-natal, a gestante tivesse o acompanhamento e preparação de um profissional da Enfermagem para tanto, já que este tem formação e habilidade para conduzir a gestante, puérpera e lactante neste processo. Se a mãe tiver interesse em amamentar, e tiver um profissional para que a oriente e conduza neste processo, criando uma relação de confiança com este, certamente obterá sucesso. Não é incomum observarmos, nos grandes centros urbanos, o grande número de mulheres que interrompem a amamentação por encontrarem dificuldades que seriam facilmente resolvidas com a intervenção de um Enfermeiro.

 Neste sentido, a saúde pública, através do Sistema Único de Saúde, na atenção primária, têm capacitado seus profissionais para este intento. A realização de atividades e oficinas de gestantes coordenados por profissionais da Enfermagem, na Unidade de Saúde em que a mulher é vinculada, dão segurança e as empoderam, tendo como efeito a obtenção do sucesso no processo de lactação.

 Apesar de termos consciência da fragilidade e vulnerabilidade de uma criança neste estágio inicial de sua vida, é de suma importância que seja destinado o devido cuidado para a mulher, dando-lhe instrumentos para que adquira confiança no exercício de uma maternidade segura e tranquila.

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 (Imagem da campanha de incentivo à amamentação do Ministério da Saúde e Sociedade Brasileira de Pediatria)

Ele não te bate

Preste atenção nos detalhes.
Ele não te bate, mas na primeira oportunidade liga o notebook da sua irmã para abrir sua rede social e ler suas conversas.
Ele não te bate, mas te enche de perguntas sobre o passado e te julga por cada pessoa que você tenha se envolvido.
Ele não te bate, mas analisa seus amigos e separam entre os que servem pra andar e os que não servem.
Ele não te bate, mas a lista dos amigos que você pode andar fica cada dia mais restrita e você mais sozinha.
Ele não te bate, mas não gosta que você tenha senha no celular.
Ele não te bate, mas se ofende toda vez que você quer sair só com suas amigas.
Ele não te bate, mas reclama das suas roupas por vezes curtas, por vezes extravagantes demais.
Ele não te bate, mas reclama da sua melhor amiga o tempo todo, amiga esta que ele já ficou.
Ele não te bate, mas duvida da sua inteligência só porque você prefere sertanejo e não rock/blues e poesia.
Ele não te bate, mas não quer que você faça o mestrado longe dele.
Ele não te bate, mas não quer que você tenha um emprego que exista a chance de ficar depois das 18 horas.
Ele não te bate, mas acha que você (quando casarem) tem que ter uma conta conjunta no banco com ele.
Ele não te bate, mas faz você se sentir impotente e com medo de ficar sem ele.
Ele não te bate, mas faz você pensar que a vida sem ele não vai mais ter importância.
Ele não te bate, mas você começa a mentir sempre com medo do que ele possa pensar e dizer.
Ele não te bate, mas você se afasta da sua família, dos seus amigos, e de tudo que possa (de longe) causar uma briga.
Ele não te bate, mas sente muito ciúmes, afinal ele te ama demais.
Ele não te bate, mas dissolve seus sonhos.
Ele não te bate, mas te chantageia sem que você se dê conta.
Ele não te bate, mas te impõe as vontades dele, os amigos dele, as músicas dele, os passeios dele.
Ele não te bate, mas você perde sua personalidade e sua vontade.
Cada dia mais e mais sozinha, mais e mais isolada do mundo e presa num relacionamento sem futuro. Cada dia com mais medo do que possa te acontecer por decisão dele ou por decisão sua mesmo. A tristeza se torna maior do que os poucos momentos bons.
A menina cheia de vida, que tinha lindos planos, dá lugar à uma menina de cabeça baixa, sem muitos sorrisos, mal-humorada, que só pensa em agradar aquele moço que namora e só pensa no quão bom ele é por aguentar os tantos defeitos que ela tem.
VOCÊ É ESSA MENINA? Então preste atenção nos detalhes e não deixe nenhum passar. Se você se identificou com algum deles, mesmo que seja um só, dê adeus pra esse relacionamento. Sem olhar pra trás.
Não deixe ninguém escolher por você e nem te dizer quem você é. Se espelhe em mim e em tantas moças que por tudo isso passaram, se espelhe nas histórias de todos os dias e saiba, principalmente, que você é merecedora de amor, muito amor.
Corre atrás da sua felicidade e corre desse relacionamento abusivo que é a única coisa que você não merece. (Taynara Pouso)mulher-triste-depressao-44456

Estamos criando uma geração de babacas

Considerando que a sociedade vive em pleno desenvolvimento, com o surgimento de novas configurações e padrões de comportamento, o que mais tem me preocupado é a educação que está sendo destinada as nossas crianças e adolescentes.

Nasci nos anos 80, uma época anterior à redemocratização do país, marcada pelas privações, inflações galopantes e pelo altos índices de mortalidade infantil.

Longe de mim fazer uma ode saudosista, mas algo que a maioria de nossa geração aprendeu foi dar o  valor às conquistas realizadas. Não tínhamos tanta tecnologia disponível, a educação era rígida, nos moldes patriarcais. Não se levantava da mesa de jantar sem pedir licença, pedíamos a benção aos mais velhos, não ousávamos falar em voz alta com nossos pais. As palavras de ordem era obrigado, por favor, com licença. Era inadmissível se dirigir a algum adulto sem se reportar a ele como senhor ou senhora.

Os avanços da psicologia infantil, a valorização da criança e adolescente como seres dignos de direitos e cuidados e a entrada em vigor do Estatuto da Criança e do Adolescente foram essenciais para a efetivação da segurança e bem estar destes.

No auge dos anos noventa, pipocaram livros e manuais de como criar filhos, sendo pais libertários e amigos, tendo como único instrumento para a resolução de conflitos o diálogo.

No entanto, creio que na intenção de criar filhos felizes e imunes às agruras da vida, colocam a disciplina, o cultivo do respeito pelo próximo e da autonomia de lado, resultando em crianças e jovens que têm suas vontades realizadas a qualquer custo, alimentando o egocentrismo e o desvalor ao sacrifício alheio.

Ao passo que houve um benefício imensurável na defesa da integridade física, psicológica e social da criança, os pais perderam a mão em impor limites às suas crias. Uma visita ao shopping corrobora para esta constatação: crianças gritando com os pais, dando ordens, se jogando no chão, gritando impropérios, pais envergonhados que subornam os pequenos com a realização de seus desejos mais bizarros, em troca do fim da birra constrangedora.

Esta ausência de limites tem reflexo na vida social. Alunos que desrespeitam professores,  jovens que ofendem os mais velhos, queimam indígenas e travestis por diversão, vandalizam o patrimônio público. E  nova corrida para os psicólogos, para entenderem o porquê dessas atitudes.

Creio que, no decorrer destes anos, esquecemos de como devemos criar filhos, e não existe um manual para tal. Pais querem sempre o melhor para seus filhos, sem sombra de dúvidas. Mas devem entender que eles precisam, além de cuidados,  aprender a cultivar o respeito, a gentileza, o amor ao próximo e o altruísmo. Precisam aprender o valor das coisas, do trabalho dos pais, ter consciência social e a reconhecer seus privilégios.

Como disse Saint-Exupéry, nos tornamos responsáveis por aquilo que cativamos. Se impusermos limites, refreando seu comportamento potencialmente imprudente, ensinando o valor primordial do respeito ao outro e ao meio ambiente, cultivando valores como honestidade e serenidade, possivelmente deixaremos no mundo as nossas marcas, através dos bons cidadãos que serão os nossos filhos. Do contrário, seremos sucedidos por pequenos fascistas, egoístas, insensíveis e hipócritas.

Ditadores