Correr

O narrador reflexivo de “Estação Carandiru” volta a nos encantar com “Correr”, onde relata seus mais de vinte anos de dedicados às maratonas, com informações científicas atuais acerca de uma das atividades esportivas mais praticadas no mundo.

Ele inicia seu livro contando a experiência que marcara o pontapé inicial na prática da corrida: um encontro com um amigo de infância que, após saber que Drauzio completaria cinquenta anos em breve, disse uma frase que ficaria na mente do brilhante oncologista: Cinquenta anos, o início da decadência da vida do homem.

Como médico, que incentiva seus pacientes, leitores e expectadores, dando conselhos para que tenhamos uma vida longa e saudável decide, naquele momento, que comemoraria seus cinquenta anos correndo a Maratona de Nova Iorque.

Nesta época, lá pelos idos dos anos 90, ainda se recomendava repouso na terceira idade, não sendo comum a prática da corrida, exceto por atletas profissionais. Quem era visto correndo sozinho nas ruas era tido como louco, excêntrico ou até mesmo fugitivo de alguma tragédia.

A cada maratona completada, desde a tradicional de Nova Iorque, passando por Blumenau, Buenos Aires, Tóquio e a concorridíssima Maratona de Boston, suas experiências e conselhos sobre a preparação, o transcorrer  da maratona, mais informações atualizadas sobre os mais recentes estudos da Medicina Esportiva, sagra este grande escritor em seus mais de vinte anos na prática da corrida, provando que é possível, para a maioria da população, a prática e a colheita dos benefícios a curto, médio e longo prazo. Basta ter condições médicas, disciplina, um bom par de tênis e a vontade de ganhar as ruas.

Correr

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Por um fio

Um de meus livros preferidos, Por um fio, do Dauzio Varella, vai além da narrativa peculiar e perspicaz do autor de Estação Carandiru.

São experiências de sua vida, compartilhadas com o leitor, suas angústias e suas reflexões, como médico e ser humano. O autor relata, de maneira sensível e fidedigna, experiências sobre a morte e a tênue linha que a separa da vida. Desde a mais tenra idade, com a morte prematura da mãe, até suas primeiras impressões, ainda no internato, da prática da clínica, dos plantões das segundas no Carandiru, de suas impressões como sanitarista, suas experiências como oncologista, até a morte do irmão, narrada de forma tocante e detalhada. Sem dúvida, mostra as várias faces da morte e de sua possibilidade, iminente e inevitável.

A obra é dividida em pequenos contos, nos quais o autor compartilha suas experiências reais, utilizando de narração em primeira pessoa. São relatadas experiências clínicas do médico com seus pacientes, portadores de câncer ou AIDS que, obviamente, tiveram seus nomes alterados no livro para preservar sua integridade; mas este fato de nada interfere no aspecto de veracidade da obra, uma vez que o autor demonstra grande capacidade de adicionar uma carga emocional à mesma.

Drauzio não restringe sua narrativa à relatos clínicos de pacientes a quem ele acompanhou. O livre permite que o leitor conheça mais a respeito do oncologista, apresentando relatos sobre sua formação e carreira. Um fato bem interessante é que o autor fala também de suas experiências internacionais e mostra a maneira como a tão temida AIDS surgiu e se espalhou gradativamente. O ponto forte do livro é a emoção, visivelmente presente em cada relato. A maneira sensível com a qual o autor narra permite ao leitor compreender  sua a rotina como  sanitarista e oncologista, os laços criados com os pacientes e como o profissional da saúde deve ter um certo preparo para lidar com a morte.

Utilizando de linguagem simples, fluida e sensível, Drauzio consegue desconstruir em seu livro a frieza e o tédio de outras obras com temática semelhante. A obra proporciona uma bela reflexão acerca da efemeridade da vida e a maneira com a qual lidamos nos nossos problemas. Um livro excepcional, que pode e deve ser lido facilmente, sobretudo por aqueles que pretendem seguir carreira na área da saúde.

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