Na trilha

A vida é, para mim, uma oportunidade única de vivenciar grandes experiências e ter grandes lições. Independente da variedade de crenças, que preceituam outras vidas e vida após a morte, penso que nossa presença e passagem por este planeta se constitui na diferença que se opera na vida das pessoas e do ambiente onde se vive. Nossa existência, ainda que insignificante diante de toda a vastidão do cosmo, tem efeitos imensuráveis  sobre nosso planeta, sendo inconcebível o descaso para com a natureza, em que pese ao que deixaremos de legado para os nossos descendentes.

Pude refletir acerca do assunto, e outros tantos, ao fazer a Trilha de Naufragados, em Florianópolis, no lado sul da ilha. Tal trilha, considerada leve para os entendidos no assunto, possui aproximadamente 2,6 km de extensão, com pequenos riachos de água límpida, com uma subida no início, e um declive na segunda metade. A paisagem é de tirar o fôlego: mata preservada, com degraus e drenagem, já que é um lugar de alta umidade.

Ao final desta trilha, somos presenteados com uma vista inesquecível de uma linda praia de areias brancas e águas transparentes, com poucas casas que constituem a vida de famílias de pescadores, onde a energia elétrica não chega.

Seguindo para o lado direito, depois do pequeno rio que ali desemboca, tem início à trilha que leva à casa do Exército (construção feita pelos militares), desabitada e parcialmente destruída e, posteriormente, aos canhões e ao farol. Ao chegar no topo, nos deparamos com uma vista magnífica do mar, da praia de Naufragados, praia do Sonho, Pinheira e Guarda do Embaú.

Apesar de ser considerada leve, eu tive algumas dificuldades. Pude sentir os efeitos drásticos do sedentarismo, sobretudo na primeira subida. Tinha em mente o que iria enfrentar, mas nem sonhava o efeito que esta trilha surtiria neste corpo sedentário e nesta mente ansiosa. Entendi uma fração ínfima do que alguns trilheiros que fizeram o caminho de Santiago de Compostela relatam. Alguns o relatam como um grande divisor de águas em sua vida.

Reitero que esta pequena trilha é incomparável a Santiago de Compostela, até mesmo risível tal comparação, mas o impacto que teve na minha vida foi grandioso.

Levei para a trilha o sedentarismo, um corpo dolorido fisicamente pelas dores emocionais, minhas mágoas, ressentimentos, minha procrastinação. Levei os sapos engolidos, os efeitos da baixa auto estima, as revoltas interiores e a incompreensão . Levei os assuntos  mal resolvidos, a culpa, a introspecção, os efeitos danosos da ansiedade e a uma interpretação equivocada acerca de alguns assuntos.

No decorrer da trilha ganhei amigos. Recebi atenção, cuidado e compreensão. Percebi um novo significado para a superação, resiliência, contemplação e silêncio. Estive atenta à minha respiração dispneica e à falta de firmeza nos tornozelos. Fui amparada durante os episódios de tontura, que não era somente pelo esforço da trilha, mas por todas as emoções que culminaram neste evento. Tive consciência de uma dimensão desconhecida do significado de compartilhar.

Deixei na trilha todas as minhas  incompreensões e apegos inúteis. A trilha, um grande presente dado pela mãe natureza, em sua grande perfeição, recebeu minhas angústias. A troca se deu mutuamente: ela recebe estas energias estafantes de uma vida fútil, egoísta e materialista, e eu preservo e zelo por estes bens milenares, onde estou apenas de passagem.

Levo da trilha, na bagagem da vida, um fardo mais leve. A capacidade de silenciar e escutar os meus sons. Levo novas perspectivas e a aceitação do meu ritmo, que não deve ter nenhum parâmetro senão o que eu decidir ser melhor para mim. Levo a gratidão por este vasto mundo, por ainda existir amor  e o reconhecimento desta fortuna que poucos se dão conta que possuem. Levo o olhar adiante, com a factível possibilidade de erro, e a certeza de que, quando ele ocorrer, tenho que levantar a cabeça e seguir em frente. Levo meus sonhos, o amor pelos meus iguais, o instinto de sobrevivência revigorado e a preservação constante de minha sanidade. Levo comigo a resistência e mil motivos para continuar, mil trilhas para andejar e muitas razões para agradecer.

“Um mundo conectado” ou “A real distância entre as pessoas”

Tive a chance de retornar à Buenos Aires. Incrivelmente, tirei apenas duas fotos, algo incrivelmente ínfimo, se comparado às quantidades colossais de fotos postadas nas redes sociais.

Confesso que gosto de fazer fotos. Talvez uma de dez preste, várias poses, caras, muito esforço e, voilà! Mais uma foto para angariar curtidas!

Temos esta necessidade de aceitação no grupo social. Queremos mostrar nossas de aventuras, cores e sorrisos, com viagens, aquisição de bens, tudo milimetricamente registrado. Faço mea culpa, também me deixei contaminar por essa péssima mania de registar imagens e não curtir o momento.

A vida nas redes sociais é uma pequena fração da realidade. Temos angústias, dúvidas existenciais, não estamos felizes com nossa aparência ou com o peso, meus face amigos, aparentemente, têm a vida mais interessante que a minha, e eu tenho que fazer algo que afaste o tédio de minha vida monótona e pareça me fazer ser mais interessante, instigante ou admirável.

Se vou ao Museu, não contemplo as obras de arte, os quadros, pinturas, desenhos e gravuras. Não observo, reflito, tampouco aspiro alcançar o estado da arte. O importante é ter sinal suficiente para fazer check-in, postar uma foto e mostrar o quanto sou cool.

Se vou ao teatro, não presto atenção ao enredo, fotografo, sendo inconveniente com meu tablet ou câmera fotográfica de última geração, com a qual não sei utilizar 95% dos seus recursos, nem mesmo ajustar o foco, emitindo flashes e perturbando a performance dos atores.

Se vou a um show, check-in, fotos em tempo real, poses e sorrisos de felicidade, péra, não ficou bom, fechei o olho… não danço ao som da música, não canto até me sumir a voz, não lembro de momentos associados àquela música, não entro no clima da apresentação.

Nessa ânsia de aproveitar, registrar e publicizar, perco o essencial. Perco o embalo da música, o ponto alto da peça, o significado da arte. Perco a conversa com os que amo, perco momentos memoráveis, perco o âmago das relações humanas.

Voltando à Buenos Aires, creio que descobri o que de melhor tem numa cidade: as pessoas. As pessoas na rua, na Universidade, nos táxis, no metrô, nas plazas, nas calles. Os dias lindos de sol e calor, a Plaza San Martín com dezenas de pessoas deitadas ao sol, a Floralis em seu esplendor no meio da tarde, a intensa movimentação da Avenida del Libertador. Pude sentir o frescor da sombra das árvores da charmosa rua Thames, os infinitos aromas do Mercado de San Telmo, o sabor da cerveja artesanal, os inúmeros sotaques de turistas.Pude deixar de me preocupar com horários, sentir a brisa fresca do fim de tarde, apesar de, nestes momentos, estar sozinha.

Não irei deixar de lado as tecnologias, nem de fazer posts nas redes sociais. Mas prometo tentar absorver o essencial, o melhor das pessoas e os momentos que elas me proporcionam, guardando lembranças e alimentando saudades.

João Pessoa

João Pessoa, a capital paraibana, hoje completa 430 anos. Tive o imenso prazer em visitá-la, no ano passado, ao participar de um evento acadêmico de Direito, na Universidade Federal da Paraíba.

Numa das menores capitais do país, localiza-se o ponto mais oriental das Américas, no Farol de Cabo Branco. Em suas belas praias, sendo as principais Tambaú, Manaíra e Cabo Branco, o sol nasce primeiro. Às cinco da manhã, o sol já está alto!

Fiquei hospedada no Hotel Casa Branca, na praia de Tambaú. Hotel simples, mas com acomodações ótimas, à uma quadra da praia, conta com uma equipe muito solícita e com a simpatia típica paraibana, café da manhã delicioso, com variedade de frutas  e pratos locais.

Como fui apresentar trabalho acadêmico, tive de me deslocar até o campus da UFPB, e o local oferecia translado, a um custo adicional.

A praia de Tambaú é a mais movimentada, com muitos estabelecimentos comerciais, quiosques, bares e restaurantes, porém existe uma lei municipal de silêncio após às 22 horas. Nesta praia, encontram-se facilmente rapazes oferecendo os passeios para as piscinas naturais de Picãozinho e o famoso pôr do sol, no Jacaré. O centro histórico é muito rico, com imponentes construções históricas do séc. XVI, e conta com guias turísticos da Prefeitura de João Pessoa.

A visita às piscinas naturais de Picãozinho é um programa imperdível. Várias embarcações partem das areias de Tambaú, a uma distância média de 1,5 km da orla, para um local preservado, de águas cristalinas, com peixes coloridos. O passeio é perfeito para que viaja com crianças. As embarcações contam com sanitários, snorkels, bar e serviço de fotografia subaquática.

A orla é muito bem preservada, com vegetação local, vias bem sinalizadas, ciclovia e calçada ampla para pedestres. Vale a pena conferir o Mercado de Artesanato, que fica próximo ao famoso Hotel Tropical Tambaú.

Outra atração imperdível é o famoso restaurante Mangai, instalado no bairro tradicional Manaíra, que se destaca pelo aconchego oferecido aos clientes, com um ambiente agradabilíssimo, staff lindamente caracterizado com trajes folclóricos, seus deliciosos pratos típicos e sucos de frutas locais.

Amei visitar esta bela cidade, e desejo um dia voltar!

Buenos Aires – Primeras impresiones

Estive em Buenos Aires, com meu marido, neste último fim de semana. Esta viagem foi aguardada ansiosamente por anos. Primeiro, porque fiz curso de língua espanhola por três anos, com certificação; por amar viagens, para perto ou longe, e amar a cultura latinoamericana.

Chegamos na sexta à noite, no Aeroparque, e ficamos hospedados no NH Crillón, no Retiro. Em seguida, empolgados, fomos à pé até a Recoleta, via Avenida del Libertador, a caminho do Hard Rock Cafe. Fiquei muito surpresa, ao chegarmos na esquina com a Avenida Alvear, ao avistar, à nossa direita, o prédio imponente do campus de Direito, da Universidade de Buenos Aires, onde pude admirar tão formosa arquitetura.

O Hard Rock Café é um ambiente muito agradável, os atendentes se preocupam em bem servir e entender os pedidos. Os preços praticados no local são um pouco inferiores ao das filiais do Brasil, e aceitam tanto pesos argentinos, como dólares americanos e reais.

Na manhã seguinte, fizemos city tour. Visitamos os principais pontos turísticos da cidade. Seguindo pela Avenida Del Libertador, fomos em direção à Recoleta, passamos pelo famoso cemitério. Vimos as embaixadas, as principais vias de Palermo, o Obelisco, a Casa Rosada e a Catedral Metropolitana de Buenos Aires, na Plaza de Mayo, que fora dirigida pelo Cardeal Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco.

Em seguida, fomos em direção ao histórico bairro de La Boca, bairro operário, de colonização italiana. Passamos no entorno do La Bombonera, até chegarmos ao Caminito. O Caminito consiste numa pequena via, com pequenas habitações coloridas com paredes de zinco, características marcantes dos cortiços portenhos. Recomendo cuidado com os pertences, pois há casos de roubos e furtos, com fuga para as ruelas de La Boca. Outro cuidado importante é com os supostos dançarinos de tango, que também estão na Plaza de Mayo, caracterizados, que tentam convencer os passantes a tirarem fotos, te cobrando por elas posteriormente. Próximo dali, localiza-se a Casa Amarilla, local com pequenos stands de artigos de couro e souvenirs, câmbio, sanitários e lanchonete. Se quiser comprar pequenas lembranças, os preços praticados ali são muito melhores que no centro.

No retorno, voltamos pelo famoso bairro nobre de Puerto Madero, como seus imóveis caríssimos, diques, universidades privadas e lofts sofisticados.

Pela tarde, demos uma passadinha na calle Florida, a duas quadras de onde estávamos hospedados. Recomendo cuidado aos rapazes e moças que anunciam câmbio a cada três metros. Segundo avisos, além do perigo de ser encaminhado para o interior dos prédios, em companhia de desconhecidos, há o risco de seus reais, dólares ou pesos serem trocados por notas falsas. Demos uma passadinha na Galerias Pacífico e, de cara, bati os olhos na loja da MAC. Infelizmente, a loja era muito simples, e seus preços são semelhantes aos da Europa. Vale a pena comprar o artigos da marca em lojas físicas e on line no Brasil, pois até no Duty Free da volta, no Aeroparque, os preços são absurdos, mas vale a pena comprar vinho e cosméticos da Dior, Chanel, L´oreal, Clinique, Sisheido, Victoria Secret´s e Revlon. A mesma recomendação serve para perfumaria, que são bem razoáveis, comparados aos preços no Brasil. Dizem que no  Ezeiza há mais variedade de produtos.

Foi-se o tempo em que os preços  eram camaradas para alimentação e compras. Com a crise argentina, e a sua vocação turística, este é o principal meio de emprego e renda para a população. Vi muitos moradores de rua, pedintes e cantores líricos de rua. Na volta do city tour, passamos pelas villas, que são o equivalente das favelas no Brasil.

Pela noite, fomos ao show de tango com jantar na Esquina Carlos Gardel. O lugar é primoroso, atendimento impecável, decoração que impressiona, menu fantástico e show com um octeto de músicos, dois cantores e seis casais de dançarinos profissionais. O valor do jantar com show, na plateia, que é mais em conta, é US$ 140,00. Posso dizer com segurança que são os 140 dólares mais bem gastos na capital argentina.

No dia seguinte, reservamos para ir no El Ateneo Grand Esplendid, na Santa Fe. Segundo consta, ela é segunda livraria mais charmosa e frequentada do mundo. Lá, aceitam dólares americanos, e os preços são consideráveis. Arriscamos fazer um passeio de trem metropolitano, até a Plaza de Mayo. A tarjeta, que é o passe, custa 5 pesos, e os mapas do metrô, com suas estações e conexões são bem orientadas. O trajeto é subterrâneo e muito fácil de ser compreendido. Umas das melhores características de Buenos Aires são as ruas muito bem sinalizadas. Se ficar hospedado nos bairros próximos ao centro, poderá ir a pé ou de trem tranquilamente. Não usamos serviços de táxi e ônibus durante nossa estadia.

Como disse no início, esta viagem foi muito aguardada, sobretudo para testar meu espanhol, já que nunca me imergi na prática diária e intensa do idioma e, embora tenha aprendido há quase vinte anos, deu de desenferrujar, e me impressionei por me dar conta que estou razoavelmente bem na conversação.

Por hora, são estas as minhas impressões inicias. Em novembro, retorno para a cidade para um evento acadêmico, no qual apresentarei trabalho, na Universidad de Buenos Aires, e espero que a experiência seja tão maravilhosa quanto foi a desta viagem.