Correr

O narrador reflexivo de “Estação Carandiru” volta a nos encantar com “Correr”, onde relata seus mais de vinte anos de dedicados às maratonas, com informações científicas atuais acerca de uma das atividades esportivas mais praticadas no mundo.

Ele inicia seu livro contando a experiência que marcara o pontapé inicial na prática da corrida: um encontro com um amigo de infância que, após saber que Drauzio completaria cinquenta anos em breve, disse uma frase que ficaria na mente do brilhante oncologista: Cinquenta anos, o início da decadência da vida do homem.

Como médico, que incentiva seus pacientes, leitores e expectadores, dando conselhos para que tenhamos uma vida longa e saudável decide, naquele momento, que comemoraria seus cinquenta anos correndo a Maratona de Nova Iorque.

Nesta época, lá pelos idos dos anos 90, ainda se recomendava repouso na terceira idade, não sendo comum a prática da corrida, exceto por atletas profissionais. Quem era visto correndo sozinho nas ruas era tido como louco, excêntrico ou até mesmo fugitivo de alguma tragédia.

A cada maratona completada, desde a tradicional de Nova Iorque, passando por Blumenau, Buenos Aires, Tóquio e a concorridíssima Maratona de Boston, suas experiências e conselhos sobre a preparação, o transcorrer  da maratona, mais informações atualizadas sobre os mais recentes estudos da Medicina Esportiva, sagra este grande escritor em seus mais de vinte anos na prática da corrida, provando que é possível, para a maioria da população, a prática e a colheita dos benefícios a curto, médio e longo prazo. Basta ter condições médicas, disciplina, um bom par de tênis e a vontade de ganhar as ruas.

Correr

Consciência Negra

Meu avô paterno nasceu na década de 20, no interior de Santa Catarina. Perdeu a mãe precocemente, e como meu bisavô não poderia cuidar dele e de seus irmãos, os destinou aos cuidados de outros.

Com cerca de cinco anos de idade, ele acordava às quatro da manhã e ia lidar com gado e outros serviços do campo. Não lhe era permitido dormir nem comer com os da casa, nem dentro dela. Apanhava, era insultado, o chamavam de “negrinho”. Ele suportou uma vida análoga à escravidão, muita humilhação e o preconceito na pele.  Este homem, quando me contava estas histórias, tinha grandes feridas na alma, dolorosas e abertas, mesmo na altura de seus mais de oitenta anos. Infelizmente, eu não tive maturidade suficiente para ouvir e contextualizar suas vivências, e sinto que perdi este elo que poderia ter nos unido.

Cresci no município onde havia a maior colônia de japoneses no estado. Admirava as tradições, a cultura e os laços que os mantinham unidos. Tive colegas com ascendentes europeus, e nesta cidade havia uma sociedade recreativa italiana. Algo que é muito comum, no sul, são os Centros de Tradições Gaúchas, com identidade e modus vivendi próprios, e ficava embevecida com toda a sua manifestação. João Luiz Corrêa, grande intérprete de música tradicionalista, diz que para ser gaúcho não precisa ser nascido no Rio Grande do Sul, basta amar as coisas deste estado. Quando cheguei ao Paraná, tive a oportunidade de conhecer um pouco das culturas polonesa e ucraniana, e meus olhos brilhavam nas apresentações folclóricas.

Ainda assim, sempre me senti uma estrangeira, sem raízes, nem tradições. A metáfora “grãos de areia ao vento” cabe muito bem ao que eu sentia.

Minhas referências eram brancas, a cor de pele era branca. O formato ideal do nariz era o afilado, os cabelos lisos, loiros ou castanhos. Odiei a cor da minha pele, em contraste com a das minhas amiguinhas. Odiei meu nariz, e planejei por anos uma rinoplastia. Odiei meus cabelos, me submetendo à guanidina e aos aldeídos.

Uma mudança gradual se operou em minha vida. Aos poucos, desenvolvi minha auto-estima, em consonância com as vivências sociais e acadêmicas. Violeta Parra disse que “y así como todo cambia, que yo cambie no es extraño”, e minhas leituras, questionamentos e problematizações causaram a ressignificação de meus paradigmas.

Mas a gota d´água foi a apresentação que assisti do Balé Folclórico da Bahia. A música, a percussão, a performance dos bailarinos, a voz dos cantores, o figurino, a iluminação. Era como um encontro de um familiar, cuja existência era ignorada. Naquele momento, senti que tinha encontrado a lacuna que me faltava, embora eu não sentisse esta ausência de maneira consciente. Tudo fez sentido, a verdadeira sensação de pertencimento, a reconstrução do meu amor próprio, em parte dilapidado pelo preconceito e pela condição de inferioridade.

Esta é a minha Consciência Negra. A Consciência da nossa tradição pela oralidade, pois dificilmente temos a possibilidade de termos um perfil no My Heritage, haja vista a condição histórica da escravidão. É a Consciência de que  avançamos pouco, da existência fática do racismo, e de que ainda temos prejuízos. É a Consciência de que a luta continua, para que aquela linha que nos separa dos demais, como disse Viola Davis, seja extinta. Não é a condição humana, que minimiza e desqualifica a luta pela igualdade racial.

Consciência Negra é lutar por mim e pelos que têm a mesma vivência, não permitindo que usurpem o nosso lugar de fala e silenciem nossa voz.

 

“Um mundo conectado” ou “A real distância entre as pessoas”

Tive a chance de retornar à Buenos Aires. Incrivelmente, tirei apenas duas fotos, algo incrivelmente ínfimo, se comparado às quantidades colossais de fotos postadas nas redes sociais.

Confesso que gosto de fazer fotos. Talvez uma de dez preste, várias poses, caras, muito esforço e, voilà! Mais uma foto para angariar curtidas!

Temos esta necessidade de aceitação no grupo social. Queremos mostrar nossas de aventuras, cores e sorrisos, com viagens, aquisição de bens, tudo milimetricamente registrado. Faço mea culpa, também me deixei contaminar por essa péssima mania de registar imagens e não curtir o momento.

A vida nas redes sociais é uma pequena fração da realidade. Temos angústias, dúvidas existenciais, não estamos felizes com nossa aparência ou com o peso, meus face amigos, aparentemente, têm a vida mais interessante que a minha, e eu tenho que fazer algo que afaste o tédio de minha vida monótona e pareça me fazer ser mais interessante, instigante ou admirável.

Se vou ao Museu, não contemplo as obras de arte, os quadros, pinturas, desenhos e gravuras. Não observo, reflito, tampouco aspiro alcançar o estado da arte. O importante é ter sinal suficiente para fazer check-in, postar uma foto e mostrar o quanto sou cool.

Se vou ao teatro, não presto atenção ao enredo, fotografo, sendo inconveniente com meu tablet ou câmera fotográfica de última geração, com a qual não sei utilizar 95% dos seus recursos, nem mesmo ajustar o foco, emitindo flashes e perturbando a performance dos atores.

Se vou a um show, check-in, fotos em tempo real, poses e sorrisos de felicidade, péra, não ficou bom, fechei o olho… não danço ao som da música, não canto até me sumir a voz, não lembro de momentos associados àquela música, não entro no clima da apresentação.

Nessa ânsia de aproveitar, registrar e publicizar, perco o essencial. Perco o embalo da música, o ponto alto da peça, o significado da arte. Perco a conversa com os que amo, perco momentos memoráveis, perco o âmago das relações humanas.

Voltando à Buenos Aires, creio que descobri o que de melhor tem numa cidade: as pessoas. As pessoas na rua, na Universidade, nos táxis, no metrô, nas plazas, nas calles. Os dias lindos de sol e calor, a Plaza San Martín com dezenas de pessoas deitadas ao sol, a Floralis em seu esplendor no meio da tarde, a intensa movimentação da Avenida del Libertador. Pude sentir o frescor da sombra das árvores da charmosa rua Thames, os infinitos aromas do Mercado de San Telmo, o sabor da cerveja artesanal, os inúmeros sotaques de turistas.Pude deixar de me preocupar com horários, sentir a brisa fresca do fim de tarde, apesar de, nestes momentos, estar sozinha.

Não irei deixar de lado as tecnologias, nem de fazer posts nas redes sociais. Mas prometo tentar absorver o essencial, o melhor das pessoas e os momentos que elas me proporcionam, guardando lembranças e alimentando saudades.

Ṣé mo setumo ara mi

Não sou água, nem ar e nem fogo. Sou terra, pés no chão, com medo de altura, de me queimar, e também não sei nadar.

Não sou morena. Sou negra, não posso me distinguir de minha raça, baseada numa suposta cartela de cores que me rotula.

Não sou delicada. Tropeço, falo palavrão, me irrito facilmente e não me importo com a opinião alheia.

Não tenho ascendência europeia. Meus ancestrais foram trazidos pra cá contra sua vontade, e estarei sempre conectada às minhas raízes.

Não tenho cabelos lisos. Aprendi a amar meu cabelo, aceitá-lo e usá-lo como instrumento político.

Não sou magra, não tenho músculos definidos, nem barriga chapada. Tenho dobras, reentrâncias, características únicas e perenes.

Não sou cristal, diamante ou esmeralda. Sou basalto, de baixo escalão; bruta, moldada pelo tempo e pelo calor das lutas da vida.

Não sou rosa, nem orquídea. Sou cacto, resistente, persistente e adaptável.

Não sou sinfonia, ópera ou música de câmara. Sou ska, atabaque e percussão.

Não sou seda, chiffon ou cetim. Sou algodão cru, simples e sustentável.

Hoje já sei quem sou, os trilhos da minha vida estão carrilhados. Minha nau pode padecer nas tempestades, raios e trovões, mas sempre ocorrerá a calmaria. Tenho a minha rosa-dos-ventos, o controle do leme e um horizonte a conquistar.

A dor que não se vê

Dia sim, outro também,

carrego um peso do tamanho do mundo

a ignorância me fazia tão bem

e inerte às agruras, no fundo.

Quando superei as minhas dores

e tudo parecia em paz

meus olhos se abriram, e vi

o quanto a vida é fugaz.

Um dia a mais, repito comigo

sem ilusões, mentiras e distrações

Preciso dormir, agora, e refletir

não me servem mais as orações.

Ainda que eu sofra, e continue sentindo

esta agonia, que nada tem a ver comigo

sempre avante, darei alguns passos

ignoro o ludíbrio, levanto a cabeça, e litigo.

Bon appétit!

Meryl Streep é considerada, por muitos, como uma das melhores atrizes de todos os tempos. Os mais pessimistas podem dizer que ela é a pior perdedora do Oscar, já foram 16 indicações em que ela venceu apenas duas vezes. Um dos motivos, são indicações por filmes como esse. Claro que ela faz um trabalho competente como sempre, mas não é uma interpretação tão arrebatadora assim. Talvez a academia fique tão ansiosa pra homenageá-la, que com certeza é a maior atriz viva, que qualquer atuação lhe vale uma indicação. Aqui, ela se junta a Amy Adams, que já acumula 3 indicações sem vitórias.
O  filme que é baseado na vida de duas mulheres. Acompanhamos a vida das duas em época distintas. Julia se muda para Paris para acompanhar o marido que trabalha na embaixada. Cansada de ficar sem fazer nada, ela tenta diversos cursos para aprender alguma coisa, até que vai parar num curso de culinária avançada, a famosa Le Cordon Bleu, em uma sala onde só tem homens. Julie tinha uma carreira promissora, mas acabou tendo que trabalhar em um cubículo atendendo telefonemas o dia inteiro.
O que as une é a culinária francesa e o desejo de compartilhar esse conhecimento com as outras pessoas. Julia, através de um livro. Julie, através de um blog na Internet. O desejo das duas, porém, é bem diferente. Julia quer um livro que seja revolucionário, que mude o mundo, talvez. Julie quer apenas elevar sua abalada auto estimada. Julia leva 8 anos para terminar o livro e tentar publicá-lo, Julie quer pegar todas as 524 receitas do livro e cozinhá-las em um ano.
As duas são, aparentemente, adoráveis, mas depois de um tempo as duas começam a ficar irritantes. Uma com suas obsessões perfeccionistas, e outra que é insegura demais e tem crises pelos motivos mais bobos.
Geralmente os filmes que mostram culinárias, tendem a deixar o espectador com vontade de comer aquelas comidas maravilhosas, ou pelo menos com vontade de conhecer aquela culinária.

Julie tenta estabelecer um paralelo entre sua vida e a de Julia Child, já que a autora de livros de receitas decidira se matricular no Le Cordon Bleu, após se casar e se mudar para Paris, como uma maneira de também fazer algo significativo. Ela tinha 32 anos, não trabalhava e não sabia cozinhar, mas adorava comer. Ela não só acabou fazendo a alegria do esposo, gourmand notável, como também acabou ficando conhecida por seu bom humor no programa de tv “Bon Appétit”, onde buscava desvendar os mistérios da cozinha francesa para os “meros mortais”.

Nessa leitura orgiástica de sabores, sobressai o humor bastante ácido e, inúmeras vezes, azedo de Julie Powell. Ela tenta contar sua experiência sem cair na pieguice, com piadinhas, ironia e uma pitada de auto-depreciação, mas acaba oferecendo um relato deveras inspirador. Algo que afasta o texto do tom “mala conselheira” que ele poderia assumir é que ela xinga muito, resmunga demais, e às vezes é tão, mas tão chata, que sentimos vontade de lhe mandar calar a droga da matraca. Acontece que é esse seu jeito imperfeito que a aproxima de nós. Julie é ansiosa, mimada, histérica e muito desorganizada. Tem de administrar o projeto morando numa espelunca decadente, tendo de pegar o metrô, cozinhando até tarde e cuidando de seu gato. É possível se identificar com ela porque, enquanto tenta fazer algo importante com um mínimo de seriedade e comprometimento, ela enfrenta inúmeras dificuldades: a imundície do apartamento, a bizarrice de certas receitas. É claro que ela surta, inúmeras vezes, ao longo do processo, mas o apoio dos amigos, parentes e leitores ajuda-a a seguir em frente e levar o projeto até o fim.

Concluída a meta, Julie alcançou notoriedade, reconhecimento e o contrato para publicar o livro. Mais que isso, ela ganhou força e recobrou a autoestima. Seu relato não é exatamente leve, tem momentos divertidos e dramáticos, e até mesmo algumas reflexões inteligentes. Por isso, aproveitando-me novamente do jargão culinário, posso dizer que o livro se apresenta em camadas, como um bolo com diferentes recheios. Desafia o nosso paladar, mas com algo ainda de familiar e aconchegante.

Precisamos falar sobre a Violência Obstétrica

Segundo o Ministério Público do estado de São Paulo, a violência obstétrica pode ser identificada durante a gestação, no momento do parto, que inclui o trabalho de parto, o parto em si e o pós-parto, e no atendimento de complicações de abortamento.

Este assunto veio à baila há pouco tempo. Não se falava nas agruras sofridas por mulheres gestantes e parturientes, sobretudo as mulheres pobres, usuárias do Sistema Único de Saúde. Mas engana-se quem pensa que isto é exclusividade da população mais vulnerável.

Como citado na cartilha do Ministério Público do estado de São Paulo, a violência obstétrica praticada durante a gestação caracteriza-se pela negligência no atendimento à mulher, nas ofensas e humilhações praticadas pela equipe de saúde e no agendamento de cesáreas sem indicação. O excesso de cesáreas no Brasil é praticado, sobretudo, por médicos de planos de saúde, cujo trabalho é drasticamente reduzido a uma cesárea, que dura em média vinte minutos, ao invés de realizar o acompanhamento durante todo o trabalho de parto e sua dinâmica, que pode levar muitas horas. Cesáreas sem indicação corroboram para a ocorrência de riscos tanto para a mulher quanto para o bebê.

O alto índice de cesáreas no Brasil levou o Governo Federal a tomar medidas para reduzir o número deste procedimento, que ocorre em torno de 85% na rede conveniada e particular, contrário ao que recomenda a Organização Mundial da Saúde.

Um momento crucial para a mulher, o trabalho de parto, onde se preconiza a presença de um acompanhante, à escolha da mulher, é totalmente negligenciada. A parturiente, quando na sala de pré-parto, encontra-se sozinha, impedida de deambular, conectada a um monitor cardiofetal e à infusão de ocitocina, para estimular as contrações, sem nenhum conforto físico e psicológico, enfrentado dores extremas. O excesso de toques vaginais, justificados pelos profissionais como sendo imprescindíveis para a verificação da dilatação do colo uterino, é outro ato agressivo, extremamente invasivo e, por vezes, doloroso. No ápice dessas dores, quando algumas chegam a gritar, vem a conhecida frase “na hora de fazer não gritou!”, ou “não grite, assim assusta outras mães!”. Raramente se faz a analgesia correta, como eu mesma pude vivenciar, no parto do meu primeiro filho. O que tive foi uma injeção intramuscular de meia ampola de dolantina com meia de fenergan, que me fazia desmaiar no intervalo das contrações, e fizeram meu filho nascer praticamente dopado.

Outra agressão comumente praticada é a realização da episiotomia. Esta incisão, justificada para que haja aumento da abertura vaginal para a saída do bebê, é a causa de lesões irrecuperáveis, cujos danos ultrapassam os aspectos físicos da mulher. Não é raro ver mulheres com infecção dessas incisões, lesões permanentes de nervos e até mesmo lacerações graves e fístulas reto-vaginais, trazendo grande dano psicológico.

Qualifica-se também como violência obstétrica aquelas praticadas por profissionais da saúde às mulheres em complicações por abortamento, que vão desde a humilhação e constrangimento, até demora ou negação ao atendimento, com a ocorrência de ameaças e coação por parte da equipe, alegando este ser crime e passível de denúncia, sendo o abortamento intencional ou acidental.

Estima-se que uma a cada quatro mulheres já sofreram violência obstétrica, e a maioria delas sequer cogitava que estes maus tratos se caracterizavam como uma violação.

Independente de onde a mulher busque o atendimento durante a gestação, parto ou em caso de abortamento, ela tem direito a um atendimento humanizado, eficiente e isento de opiniões ou crenças pessoais. O impedimento às condições de dignidade, como maus-tratos, constrangimento, impedir a presença de um acompanhante e a realização de procedimentos desnecessários ou sem o consentimento da mulher é violência obstétrica. Em caso de ocorrência, o Ministério Público do estado de São Paulo recomenda que se exija a cópia de seu prontuário médico na instituição de saúde, e procure a Defensoria Pública. Outro meio de fazer denúncias é pelo telefone 180 (Violência contra a Mulher) e 136 (Disque Saúde).

O racismo nosso de cada dia

O neurocientista Carl Hart, professor titular do departamento de Psicologia e Psiquiatria da Universidade de Columbia, foi supostamente barrado na entrada do hotel Tivoli Mofarrej, onde faria palestra, no Seminário Internacional do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. Posteriormente, em sua fala no evento, ele pediu que os ouvintes olhassem às suas voltas e percebessem se haviam negros na plateia. Não havia nenhum, e ele disse que este seria um motivo de vergonha para os presentes.

Numa entrevista, ainda no dia de hoje, Hart esclareceu o fato e disse que o episódio não o afligia, e nem de longe afeta sua vida e carreira. O que o preocupa é o fato de um país, com uma população de 50% de afrodescendentes seja tão pouco representada na política, nas universidades, nas classes médias. Isto é uma ínfima amostra do que a população sofre, diariamente.

A divulgação do episódio  e da sua fala no evento demonstrou, além do racismo escancarado no país, a falta de representatividade do negro e seu isolamento na sociedade. Não sabemos discutir de maneira madura este racismo, ora velado, ora escancarado. A maioria da população, de modo rasteiro, se manifesta contra as cotas, não reconhecendo a dívida histórica para conosco, já que me incluo nesta estatística.

O lugar do negro na sociedade brasileira é na favela, nas cozinhas e áreas de serviço da classe média, nas propagandas hiperssexualizadas que maculam o corpo da mulher negra, na maioria da população carcerária brasileira, nas altas estatísticas de  homicídios de jovens negros.

Este negro, que quando ascende às universidades, reclama pelos seus direitos, luta pela preservação de sua cultura e requer representatividade, incomoda àqueles que os tratam como “se fossem da família”.

Uma boa notícia que tivemos esta semana, que me conforta, é que o Conselho Federal da OAB criou a Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil, no âmbito da entidade, para investigar os fatos relativos à escravidão de africanos e seus descendentes, com a intenção fazer um resgate histórico e da contribuição da população negra para o desenvolvimento do país. Além do resgate histórico, será possível discutir a reparação e avaliar as condições de desigualdade nos campos político, econômico, de mercado de trabalho, das questões quilombolas e das religiões de matriz africana. Creio que este trabalho será de grande valia, pois os graves danos causados à população negra do país serão de fato mensurados, e possibilitarão a construção de políticas e demais iniciativas para reparar este agravo.

João Pessoa

João Pessoa, a capital paraibana, hoje completa 430 anos. Tive o imenso prazer em visitá-la, no ano passado, ao participar de um evento acadêmico de Direito, na Universidade Federal da Paraíba.

Numa das menores capitais do país, localiza-se o ponto mais oriental das Américas, no Farol de Cabo Branco. Em suas belas praias, sendo as principais Tambaú, Manaíra e Cabo Branco, o sol nasce primeiro. Às cinco da manhã, o sol já está alto!

Fiquei hospedada no Hotel Casa Branca, na praia de Tambaú. Hotel simples, mas com acomodações ótimas, à uma quadra da praia, conta com uma equipe muito solícita e com a simpatia típica paraibana, café da manhã delicioso, com variedade de frutas  e pratos locais.

Como fui apresentar trabalho acadêmico, tive de me deslocar até o campus da UFPB, e o local oferecia translado, a um custo adicional.

A praia de Tambaú é a mais movimentada, com muitos estabelecimentos comerciais, quiosques, bares e restaurantes, porém existe uma lei municipal de silêncio após às 22 horas. Nesta praia, encontram-se facilmente rapazes oferecendo os passeios para as piscinas naturais de Picãozinho e o famoso pôr do sol, no Jacaré. O centro histórico é muito rico, com imponentes construções históricas do séc. XVI, e conta com guias turísticos da Prefeitura de João Pessoa.

A visita às piscinas naturais de Picãozinho é um programa imperdível. Várias embarcações partem das areias de Tambaú, a uma distância média de 1,5 km da orla, para um local preservado, de águas cristalinas, com peixes coloridos. O passeio é perfeito para que viaja com crianças. As embarcações contam com sanitários, snorkels, bar e serviço de fotografia subaquática.

A orla é muito bem preservada, com vegetação local, vias bem sinalizadas, ciclovia e calçada ampla para pedestres. Vale a pena conferir o Mercado de Artesanato, que fica próximo ao famoso Hotel Tropical Tambaú.

Outra atração imperdível é o famoso restaurante Mangai, instalado no bairro tradicional Manaíra, que se destaca pelo aconchego oferecido aos clientes, com um ambiente agradabilíssimo, staff lindamente caracterizado com trajes folclóricos, seus deliciosos pratos típicos e sucos de frutas locais.

Amei visitar esta bela cidade, e desejo um dia voltar!

Por um fio

Um de meus livros preferidos, Por um fio, do Dauzio Varella, vai além da narrativa peculiar e perspicaz do autor de Estação Carandiru.

São experiências de sua vida, compartilhadas com o leitor, suas angústias e suas reflexões, como médico e ser humano. O autor relata, de maneira sensível e fidedigna, experiências sobre a morte e a tênue linha que a separa da vida. Desde a mais tenra idade, com a morte prematura da mãe, até suas primeiras impressões, ainda no internato, da prática da clínica, dos plantões das segundas no Carandiru, de suas impressões como sanitarista, suas experiências como oncologista, até a morte do irmão, narrada de forma tocante e detalhada. Sem dúvida, mostra as várias faces da morte e de sua possibilidade, iminente e inevitável.

A obra é dividida em pequenos contos, nos quais o autor compartilha suas experiências reais, utilizando de narração em primeira pessoa. São relatadas experiências clínicas do médico com seus pacientes, portadores de câncer ou AIDS que, obviamente, tiveram seus nomes alterados no livro para preservar sua integridade; mas este fato de nada interfere no aspecto de veracidade da obra, uma vez que o autor demonstra grande capacidade de adicionar uma carga emocional à mesma.

Drauzio não restringe sua narrativa à relatos clínicos de pacientes a quem ele acompanhou. O livre permite que o leitor conheça mais a respeito do oncologista, apresentando relatos sobre sua formação e carreira. Um fato bem interessante é que o autor fala também de suas experiências internacionais e mostra a maneira como a tão temida AIDS surgiu e se espalhou gradativamente. O ponto forte do livro é a emoção, visivelmente presente em cada relato. A maneira sensível com a qual o autor narra permite ao leitor compreender  sua a rotina como  sanitarista e oncologista, os laços criados com os pacientes e como o profissional da saúde deve ter um certo preparo para lidar com a morte.

Utilizando de linguagem simples, fluida e sensível, Drauzio consegue desconstruir em seu livro a frieza e o tédio de outras obras com temática semelhante. A obra proporciona uma bela reflexão acerca da efemeridade da vida e a maneira com a qual lidamos nos nossos problemas. Um livro excepcional, que pode e deve ser lido facilmente, sobretudo por aqueles que pretendem seguir carreira na área da saúde.

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